Título: Montadoras à beira do colapso
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Fonte: O Globo, 13/12/2008, Economia, p. 43

Senado americano rejeita plano de socorro e Bush pode lançar mão de pacote bilionário. GM e Chrysler já avaliam pedir concordata.

Com a objeção do Senado americano em aprovar o socorro às montadoras na noite de quinta-feira, tornam-se remotas as chances de as empresas terem acesso, ainda este ano, ao crédito necessário à sua sobrevivência. Após, o fracasso no Legislativo, o presidente dos EUA, George W. Bush, deu o braço a torcer ontem e indicou que poderá destinar ao setor automobilístico parte do pacote de US$700 bilhões, originalmente arquitetado para resgatar o sistema financeiro. Com a incerteza sobre a ajuda, porém, General Motors (GM) e Chrysler, em piores condições que a Ford, já consultam escritórios de advocacia sobre a possibilidade de um pedido de concordata.

A proposta que asseguraria US$14 bilhões a curto prazo às montadoras foi derrubada no Senado por não ter conseguido os 60 votos necessários. Foram 52 a favor e 35 contra. Entre os parlamentares favoráveis ao projeto - aprovado na véspera na Câmara dos Representantes, por 237 a 170 votos -, havia apenas dez republicanos. A maioria destes - assim como Bush e o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, se opunha à extensão do pacote financeiro a outros segmentos desde o início das discussões.

O líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell, resumiu a posição do partido:

- Nenhum de nós quer ver (o setor) ir para o buraco, mas muitos poucos de nós têm qualquer coisa a ver com o dilema que eles criaram para si mesmos. (...) A proposta era simplesmente inaceitável.

Ontem, republicanos e sindicatos trocaram acusações sobre a responsabilidade pelo fracasso no Senado. Os parlamentares acusavam o presidente do United Auto Workers (UAW, sindicato que reúne os trabalhadores do setor automobilístico), Ron Gettelfinger, de ter se recusado a fazer concessões salariais em 2009, como parte do acordo. Hoje, os trabalhadores de empresas filiadas ao sindicato ganham, por hora, de US$3 a US$4 a mais que os de montadoras não filiadas, como a estrangeira Toyota. Isso eleva os custos não apenas do pessoal que está na ativa, mas também com as aposentadorias. Os republicanos defendiam o nivelamento dos salários.

Tesouro: preparado para ajudar setor

Gettelfinger, por sua vez, rebateu as críticas e disse que "a única solução são os recursos do Tesouro."

"UAW pede ao Departamento do Tesouro e ao Federal Reserve que usem sua autoridade para evitar um colapso iminente das montadoras e suas conseqüências devastadoras", disse ele ao site CNNMoney.

Em comunicado divulgado ontem, minutos antes da abertura dos mercados americanos, a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, disse que, "em vista do atual estado de fragilidade da economia americana, estudaremos outras alternativas, entre as quais o uso do TARP (sigla em inglês para Programa de Ajuda a Ativos Problemáticos, o nome oficial do programa de socorro aos bancos) para evitar um colapso das montadoras com problemas."

O Departamento do Tesouro americano - que administra o pacote de US$700 bilhões - também indicou disposição para ajudar o setor.

- Como o Congresso falhou em agir, estamos preparados para evitar um fracasso iminente até que o Congresso se reúna de novo e aja para assegurar a viabilidade de curto prazo da indústria - disse a porta-voz do departamento, Brookly McLaughlin.

Mas ainda que a Casa Branca dê sinal verde para o uso dos recursos pelas "Três Grandes" (GM, Ford e Chrysler), a liberação do dinheiro não deverá ocorrer antes de uma nova batalha no Congresso. O desembolso da segunda parcela do pacote bilionário - independentemente da finalidade - depende da aprovação do Legislativo. E, até agora, só foi liberada a primeira parcela de US$350 bilhões, dos quais já foram comprometidos US$335 bilhões.

GM anuncia corte de 60% na produção

O primeiro efeito da rejeição do socorro do Senado foi sentido ontem mesmo. A GM anunciou que vai cortar em 60% a produção do primeiro trimestre de 2009. A montadora havia pedido aos congressistas US$4 bilhões em caráter emergencial para terminar o ano e mais US$6 bilhões, para manter suas operações nos três primeiros meses de 2009. Segundo seu porta-voz, Tony Cervone, a empresa vai "avaliar todas as opções para continuar a reestruturação e obter maneiras de enfrentar a atual crise econômica." A montadora já estaria avaliando com o escritório Weil, Gotshal & Manges um pedido de concordata.

Já o diretor-executivo da Chrysler, Robert Nardelli, disse a seus empregados que está "mantendo discussões com a equipe presidencial de transição", segundo a edição eletrônica do "Detroit News." Após a manifestação da Casa Branca de socorrer o setor, Nardelli se disse aliviado. Mas, como precisa de US$4 bilhões para sobreviver até março de 2009, a empresa já estaria consultando assessores jurídicos sobre uma possível concordata, segundo a imprensa americana.

O presidente eleito Barack Obama não confirmou as supostas conversas com a Chrysler, mas disse em nota estar "decepcionado" com o resultado da votação no Senado. Embora reconheça que "as más práticas da indústria automobilística" não devem ser recompensadas, ele lembrou que milhões de empregos estão em risco e disse ter esperança que a Casa Branca e o Congresso cheguem a um consenso. Obama assume o governo apenas em 20 de janeiro.

BOVESPA SOBE 2,22% COM POSSIBILIDADE DE AJUDA DA CASA BRANCA, na página 44

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