Título: Juro zero para o consumo
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Fonte: O Globo, 17/12/2008, Economia, p. 21

Taxa básica americana cai a nível histórico e poderá flutuar em banda inédita de zero a 0,25%.

Da Bloomberg News*

OFederal Reserve (Fed, o banco central americano) tomou ontem uma decisão histórica, levando a taxa básica de juros dos Estados Unidos a praticamente zero, para estimular o consumo e reanimar a economia. O Fed reduziu os juros de 1% para uma faixa de zero a 0,25% por ano. Patamar inédito e o menor patamar da série histórica, iniciada em 1954. Também a utilização da faixa de flutuação é inédita. O Fed também prometeu usar "todas as ferramentas disponíveis para promover a retomada do crescimento econômico sustentável e promover a estabilidade de preços".

O próximo passo do Fed será comprar dívidas e papéis lastreados em hipotecas. No comunicado anunciando o novo patamar dos juros, o BC americano também diz que "está avaliando os potenciais benefícios de comprar títulos do Tesouro". A autoridade monetária afirma ainda que os juros devem ficar em "níveis excepcionalmente baixos por algum tempo".

Outro instrumento para estimular a economia pode ser a injeção de liquidez, conforme afirmou, no início deste mês, o presidente do Fed, Ben Bernanke. Ele disse que essa seria "a segunda flecha" do BC.

Normalmente, o Fed fixa um juro, não uma banda. A maioria dos analistas esperava corte de 0,5 ponto percentual, para 0,5%, mas havia quem apostasse em corte de 0,75. Antes do anúncio dos juros, a taxa, na prática, já estava abaixo de 1%. Em novembro, a média ficou em 0,39%, chegando a 0,13% na semana passada.

- O Fed está enviando a mensagem de que vai imprimir dinheiro em uma escala ilimitada até ver a economia se expandindo - disse William Poole, ex-presidente do Fed de St. Louis e membro do Instituto Cato, instituição independente que pesquisa políticas públicas.

Preços no varejo têm queda histórica

Para tomar a decisão - unânime -, o Fed considerou dados como o índice de desemprego, que mês passado atingiu 6,7%, o maior patamar desde 1993, e a inflação. O índice de preços ao consumidor registrou em novembro sua maior queda histórica: 1,7%. A série teve início em 1947. Já a construção de casas despencou 18,9%, para 650 mil unidades, o menor patamar da série histórica, iniciada em 1959.

A decisão do Fed animou o mercado americano: o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, fechou em alta de 4,20%, e o Nasdaq saltou 5,41%. Os bônus do Tesouro americano também se beneficiaram, graças à expectativa da compra dos títulos pelo BC. O rendimento dos títulos de dez anos recuou de 2,51% para 2,30% ontem (quando a procura cresce, o retorno diminui, porque o valor pago pelo investidor para comprar o papel aumenta). O dólar recuou frente às principais moedas.

O problema é que o Fed pode estar ficando sem instrumentos para estimular a economia, que entrou em recessão há um ano. Nos últimos 14 meses, ele cortou os juros nove vezes e ofereceu ao mercado US$1,4 trilhão em linhas de crédito emergencial, sem sucesso. O crédito continua escasso.

Mas a redução da taxa básica do Fed vai se refletir em juros menores para o consumidor. Ontem mesmo, vários bancos reduziram suas taxas de 4% para 3,35%.

Antes da decisão de ontem do Fed, só o Banco do Japão mantinha juros tão baixos. O BC japonês manteve sua taxa básica em zero de 2001 a 2006, ao mesmo tempo em que inundava o sistema bancário com dinheiro para encorajar empréstimos, estimular o crescimento e combater a deflação.

O ex-diretor do BC brasileiro Carlos Langoni esperava um corte mais agressivo, direto para zero, que teria "um efeito psicológico maior". Ele disse que a decisão mostra que o Fed está preocupado não apenas com os sinais claros de deflação, mas também com a recessão:

- Nessa circunstância, tem que usar todo o seu arsenal monetário.

Para economistas, dólar deve cair

O economista do Banco Real, Cristiano Souza, explica que o Fed apenas se ajustou a condições que já vinham sendo adotadas no mercado. Devido à fuga para investimentos seguros, os títulos do Tesouro americano, dados como lastro em empréstimos interbancários, já estavam remunerando os investidores bem abaixo da taxa básica. Com isso, as taxas entre bancos também estavam ficando mais baixas.

- Ao longo de dezembro, os empréstimos interbancários estavam sendo feitos a juro inferior a 0,25%. Se o Fed baixasse a taxa para 0,50% ou 0,25%, ficaria em situação irreal. E se a trouxesse diretamente para zero, mostraria que não haveria muito mais a ser feito em termos de política monetária - disse Souza, que não acredita que esse corte seja suficiente para estimular a economia.

Para o diretor-executivo da Asset Management da Concórdia Corretora, Ricardo Amorim, o Fed "está ficando totalmente sem instrumentos".

- Acabou a bala na agulha. E, para não ter de admitir isso, fixando o juro zero, o Fed criou a história do intervalo - afirmou Amorim, para quem a próxima bolha a estourar será a dos títulos do Tesouro. - Os seus prêmios atuais refletem um país em deflação pelos próximos cinco anos, previsão muito pior que a de todos. Acontece que, com a recessão, a situação fiscal dos EUA ficará horrorosa e o investidor vai morrer de medo, vendendo os títulos em massa.

À medida que a rentabilidade dos títulos cair, economistas esperam desvalorização do dólar.

- Esse efeito não é imediato porque muitas empresas ainda precisam fazer remessas em dólares. E ainda há gente em busca dos papéis do Tesouro atrás da segurança. Mas, quando o cenário se acalmar, o dólar deve recuar - disse Marcelo Voss, economista-chefe da Liquidez, que manteve sua projeção para o câmbio no Brasil este ano a R$2,30.

(*) Com Juliana Rangel e agências internacionais