Título: Dólar cai 1,05% com leilões do Banco Central
Autor: Duarte, Patrícia; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 18/12/2008, Economia, p. 29

Para economistas, ainda é cedo para dizer se moeda se enfraquecerá no mundo com corte de juros americanos.

RIO, SÃO PAULO e BRASÍLIA. O dólar teve o segundo dia consecutivo de queda, após a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de reduzir a taxa básica de juros para uma faixa entre zero e 0,25% ao ano. No Brasil, o dólar fechou em baixa de 1,05%, a R$2,347, com a ajuda do Banco Central (BC). No início da tarde, a instituição vendeu US$169 milhões no mercado à vista, o que segurou a alta de 1,06% da divisa de manhã.

O BC vendeu ainda US$500 milhões com compromisso de recompra em março, julho e outubro de 2009. No mercado futuro, fez a rolagem de cerca de US$1 bilhão em contratos de swap cambial (em que paga a variação do dólar e recebe uma taxa de juros) que venceriam em janeiro. Para Álvaro Bandeira, economista-chefe da corretora Ágora, é cedo para dizer que o dólar tende a cair com o corte dos juros nos EUA. A queda seria causada pela saída de investidores para outros países em busca de melhores rendimentos.

- Os outros bancos centrais, como o da Inglaterra e o europeu, também vão cortar juros - disse.

Para Sidnei Nehme, gerente de câmbio da NGO Corretora, ainda não é agora que o real deve se recuperar. Ele estima o dólar a R$2,10 no fim de 2009.

A decisão do Fed era uma medida inevitável diante de um cenário que combina o agravamento da recessão com os primeiros sinais de deflação na economia americana, avaliam economistas. Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que, além de estimular o consumo, o Fed quis mostrar que fará de tudo para combater o aprofundamento da recessão. Ao reduzir os juros, o Fed também facilitou a vida dos americanos endividados.

Fluxo cambial fica negativo em US$2,1 bi no mês

Para Langoni, o Fed esgotou sua margem de manobra em termos de juros, mas tem outros meios de seguir atuando na política monetária, por exemplo, comprando títulos de longo prazo do Tesouro americano, injetando liquidez na economia.

Fernando Sampaio, economista e diretor da LCA Consultores, lembra que Ben Bernanke, o presidente do Fed, estudou a fundo a crise vivida pelo Japão, que ao longo dos anos 1990 e parte desta mergulhou em uma profunda estagnação. A preocupação do Fed neste momento, disse, é quebrar a atitude defensiva dos consumidores, antes que ela se cristalize, como aconteceu no Japão.

No mercado de ações, a disputa entre investidores pelo vencimento ontem dos contratos de índice futuro - em que uns apostam na alta e outros, na queda, do Índice Bovespa (Ibovespa) - tornou o dia volátil. Depois de subir 0,92% (e superar 40 mil pontos) e de cair mais de 2% faltando 20 minutos para o fim dos negócios, o Ibovespa fechou o dia em queda leve, de 0,12%, a 39.947 pontos. Os papéis da Petrobras subiram 2,31% e os da Vale, 1,77%, com investidores aproveitando os baixos preços.

Segundo dados do BC, o fluxo cambial comercial ficou negativo em US$839 milhões entre os dias 8 e 12, resultado muito pior do que o superávit de US$1,088 bilhão da primeira semana do mês. O desempenho fez o fluxo cambial geral - entrada e saída de moeda estrangeira - a registrar perda líquida de US$2,169 bilhões no período. Na semana anterior, o resultado era positivo em US$7 milhões, o que dá no acumulado do mês déficit de US$2,163 bilhões. No campo financeiro, a última semana também foi marcada por fortes saídas líquidas: US$1,332 bilhão, acumulando no mês déficit de US$2,411 bilhões.

Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones caiu 1,12%, o Nasdaq, 0,67%, e o S&P, 0,96%, devido ao prejuízo de US$2,3 bilhões do banco de investimento Morgan Stanley.

O corte do Fed fez a Bolsa do Japão subir 0,52% e a de Hong Kong, 2,18%. Na Europa, a Bolsa de Londres subiu 0,35%.