Título: Sonhos e expectativas da nação
Autor:
Fonte: O Globo, 04/01/2009, Esportes, p. 34

CONEXÃO ÁFRICA-2010 Com altas taxas de desemprego e criminalidade, África do Sul vê melhorias com a Copa Jorge Luiz Rodrigues Thomas Mudau faz parte das estatísticas entre os 26% de desempregados da região metropolitana de Johannesburgo, a mais populosa área (7,15 milhões de habitantes) da África do Sul e a quarta maior do continente africano. Fala inglês, francês e vários dos 11 dialetos do país, mas procura emprego fixo como guia de turismo. Natural de Soweto, o famoso distrito a Sudoeste da cidade e símbolo da luta que culminou, em 1992, com o fim do regime de segregação e discriminação racial (apartheid), Mudau torce pelo sucesso da Copa do Mundo-2010. No fundo, uma esperança de menos incerteza para ele mesmo. ¿ É a oportunidade para eu conseguir emprego fixo ¿ resume o guia freelancer, que trabalhou em novembro para a Turismo Sul-Africano (a Embratur local), durante um evento da Fifa. O país de Mudau investe 22 bilhões de rands (US$2,35 bilhões ou R$5,47 bilhões) em construção e reformas de dez estádios, modernização de transportes, estradas, segurança, comunicação, tecnologia, energia, turismo e treinamento. Com os projetos da iniciativa privada, os investimentos para a Copa do Mundo-2010 superam 80 bilhões de rands (US$8,60 bilhões ou R$19,95 bilhões), segundo a Agência de Desenvolvimento Econômico de Gauteng (GEDA), a província da qual Johannesburgo é capital. Estima-se que foram criados 15 mil postos de trabalho apenas com estádios. Virou alento num país com 26,6% de desempregados ¿ o número oficial, mas os sindicatos falam em 40%. Explica a razão de Johannesburgo ser considerada pela ONU uma das cidades mais violentas do mundo. Lá, até o embaixador sul-africano nas Nações Unidas foi assaltado por homens armados, horas após chegar de Nova York, em 2007. Paixão usada por baixo do uniforme escolar A África do Sul espera cerca de 480 mil turistas durante o megaevento, que começará daqui a 522 dias ¿ a 11 de junho de 2010. Porém, a falta de qualificação da mão-de-obra para melhorar a infra-estrutura e receber tanta gente se tornou desafio em meio ao boom de investimentos, num cenário onde 80% da população tiveram o direito ao ensino restringido durante o apartheid. Siphine Ngwenya e Peter Sejake já conseguiram novos empregos porque estavam preparados. No fim de novembro, o primeiro assumiu como gerente de projeto do Comitê Organizador em Bloemfontein, a 423km de Johannesburgo e onde o Brasil estreará na Copa das Confederações, em 15 de junho próximo, contra o Egito. Sejake se tornou o gerente de segurança. ¿ O Brasil não terá problemas aqui ¿ promete o falante Ngwenya. Já em Johannesburgo, percorrendo o caminho que leva do luxuoso distrito de Sandton até o humilde Soweto, as enormes desigualdades explicam a razão de tantas preocupações. No país 125º colocado no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU (o Brasil é o 70º), barracos e choças se misturam às casas de alvenaria humildes, de gente que sorri quando o assunto é o soccer (futebol). Como nos subúrbios do Rio, em Soweto é fácil se deparar com meninos, adolescentes e até homens feitos jogando futebol nas ruas. A bola é um presente apreciado desde o berço, e não apenas na região de Gauteng. Em Bloemfontein, os olhos negros de Setai Thebe brilham quando o repórter do GLOBO responde ao menino sobre de qual país vem. ¿ Do Brasil! Pede para o Ronaldinho (Gaúcho) e o Kaká virem aqui na nossa escola! ¿ exclama o garoto de 11 anos, que veste sua paixão pelo futebol até por baixo do uniforme amarelo e azul da Escola Pública Mothusi: a camisa verde e branca do Bloemfontein Celtic, o time profissional de futebol da cidade. Logo alguém aparece com uma bola. É a senha para Setai Thebe fazer embaixadinhas e mostrar que a intimidade dele com a arte do futebol vai além de torcer pelo Celtic e admirar craques brasileiros.