Título: Não são mais 7 mil vereadores que resolverão problemas das cidades
Autor: Gois, Chico de; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 20/12/2008, O País, p. 3

FARRA FISCAL

Lula condena aprovação de emenda que aumenta cadeiras nas câmaras municipais

LULA E dona Marisa posam com funcionários do Planalto, que comemoravam o Natal: presidente defendeu candidatura de Dilma, mas disse que ela deve dar mais entrevistas

Chico de Gois e Luiza Damé

Num café da manhã com jornalistas ontem, no Palácio do Planalto, o presidente Lula criticou a aprovação, pelo Senado, da proposta de emenda constitucional que cria 7.343 vagas de vereadores. Fugindo à praxe adotada por ele de não comentar projetos do Congresso, Lula foi enfático ao dizer que o país não precisa de mais tantos vereadores:

- Não são mais sete mil vereadores que vão resolver os problemas das cidades - disse.

O presidente voltou a defender a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, como candidata à sua sucessão em 2010, qualificando-a de "extremamente preparada", mas reconheceu que apenas conhecimentos técnicos não bastam para ocupar a cadeira de presidente. Ele sugeriu que a ministra conceda entrevistas para aparecer mais na mídia.

Com índice de popularidade acima de 80%, Lula disse que não é insensível às pesquisas de opinião, mas declarou que não se deixa influenciar por elas. Repetiu, mais de uma vez, que não discute a hipótese de um terceiro mandato e afirmou que, depois que deixar a Presidência, não pretende se candidatar a mais nada, nem mesmo nas eleições de 2014.

Piadas com sapato jogado em Bush

Bem-humorado, ao lado do ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, do porta-voz Marcelo Baumbach, e de mais dois assessores, Lula quase não comeu, tomou duas xícaras de café, mas não se negou a responder a nenhuma pergunta. Instado pelos repórteres, o presidente brincou, mais uma vez, com o episódio do jornalista iraquiano que atirou um sapato contra o presidente George W. Bush. Ele comparou o inusitado do episódio a uma pergunta feita pela jornalista Sônia Carneiro, no início da década de 90, ao ex-presidente Fernando Collor. Na ocasião, havia rumores de que ele estivesse com Aids, e Soninha, como é conhecida, foi direto ao assunto, perguntando a Collor se ele havia contraído o vírus. Collor negou. Perguntado em quem daria uma sapatada, Lula riu, e respondeu que em ninguém. Mas provocou os repórteres:

- Acho que, a partir de agora, o risco é ter alguém querendo dar sapatada em repórter que faz pergunta inconveniente - afirmou, observando em seguida que, de agora em diante, alguns presidentes darão entrevistas atrás de um vidro blindado.

Ainda sobre a sapatada, sugeriu que a indústria calçadista passe a produzir sapatos com cheiro bom e menos pesados:

- O risco de algum jornalista jogar sapato em alguém é o sapato estar furado.

Por determinação do Palácio do Planalto, os jornalistas não puderam gravar ou anotar as declarações do presidente. Vários funcionários do Planalto, além de sete seguranças, acompanharam a entrevista. Alguns trechos:

VEREADORES: "Não (o Brasil não precisa de mais vereadores). Não são mais sete mil vereadores que vão resolver os problemas das cidades. Eu não tenho direito de dar palpite nas decisões do Congresso, mas não vejo necessidade (de mais cadeiras)."

DILMA: "Só isso (ser extremamente gabaritada) não basta. Ela tem todo o tempo do mundo para se tornar conhecida aqui e lá fora, já que há internet, rádio, televisão e jornal. Ela precisa ter mais disposição para dar entrevista. Assunto é o que não falta. Na hora em que conversarmos sobre isso (com a Dilma sobre a candidatura dela), vai ser definitivo."

OUTROS NOMES (para 2010): "O que não falta são nomes. Dizem que este cargo é espinhoso, envelhece, deixa o cabelo branco, mas todo mundo quer, e quem está aqui não quer sair."

TERCEIRO MANDATO E 2014: "Não quero saber (de terceiro mandato). E não trabalho com a hipótese absurda que alguns companheiros falam: "Você sai agora e retorna em 2014". JK pensou que ia voltar e não voltou."

TELHADO DE VIDRO: "Ex-presidente não deve dar palpite sobre o governo. Só deve falar se for consultado, porque todo ex-presidente tem telhado de vidro. Ex-presidente dará uma contribuição extraordinária se souber ficar quietinho. Ex-presidente não deve disputar outro cargo, porque já chegou no máximo."

POPULARIDADE: "Se disser que sou insensível, vocês não precisam acreditar, mas não me deixo seduzir. Meu ego não cresce um milímetro. Vejam bem, uma pesquisa não pode passar de 100. Então, a popularidade pode cair, e aí bate o desespero quando cai."

ELEIÇÃO CÂMARA E SENADO: "Do ponto de vista democrático, pode lançar mais de uma candidatura? Pode... Não se pode sair atirando para todos os lados. Não podemos incorrer no mesmo erro do passado quando, por falta de bom senso, acabou ganhando a eleição o deputado Severino Cavalcanti. Eu pensei que o jogo já estivesse definido, com Tião Viana (PT-AC) no Senado e Michel Temer (PMDB-SP) na Câmara. Todos ganharíamos com isso."

PAC: "Vou repetir aqui: nós não vamos parar nenhuma obra do PAC, e não fiquem surpresos se apresentarmos novas obras para um novo PAC no ano que vem."

EQUADOR E PARAGUAI: "Você não pode politizar um debate, porque senão fica refém das palavras (sobre ameaça de moratória dos vizinhos). O Brasil é muito grande e não pode se estressar."