Título: Sem negociação com Hamas
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 14/01/2009, O Mundo, p. 25

GUERRA EM GAZA

Hillary Clinton, futura chefe da diplomacia dos EUA, diz que Obama buscará paz na região.

O governo Barack Obama não negociará com o Hamas enquanto o grupo radical palestino não reconhecer a existência de Israel e renunciar à violência. A declaração foi feita pela futura secretária de Estado americana, Hillary Clinton, durante sua sabatina de confirmação na comissão de Relações Exteriores do Senado. As respostas dela - que incluíram uma defesa da criação de um Estado palestino independente e seguro - foram as primeiras posições oficiais do próximo governo americano sobre a crise no Oriente Médio.

- Não se pode negociar com o Hamas até que ele renuncie à violência, reconheça Israel e concorde em obedecer acordos já feitos. Esta é a posição do governo dos EUA, a posição do presidente eleito - disse ela.

Segundo a próxima chefe da diplomacia dos EUA, a postura do governo americano em relação ao Hamas, no entanto, não impede que o país consiga progressos num processo de paz no Oriente Médio.

- Intratáveis como os problemas do Oriente Médio parecem ser, e muitos presidentes, inclusive o meu marido, investiram anos tentando conseguir uma solução, não podemos desistir de buscar a paz.

Hillary defendeu uma linha de ação que adote uma "estratégia de poder inteligente no Oriente Médio, que cumpra as necessidades de segurança de Israel e as aspirações políticas e econômicas legítimas dos palestinos".

- Nós (ela e Obama) entendemos e somos profundamente simpáticos ao desejo de Israel de se defender sob as atuais condições, e de se ver livre dos foguetes do Hamas - disse ela, que acrescentou que os palestinos também precisam e merecem ter um Estado seguro. - Os trágicos custos humanos devem aumentar nossa determinação de buscar um acordo de paz justo e duradouro que traga uma segurança real para Israel; relações normais e positivas com seus vizinhos; e independência, progresso econômico e segurança para os palestinos em seu próprio Estado.

Novo estilo diplomático com Irã

O programa nuclear do Irã também foi mencionado pela atual senadora, que afirmou que tentará um estilo de diplomacia "novo, talvez diferente" em relação ao país.

- Faremos tudo o que pudermos com diplomacia, com o uso de sanções, com a criação de coalizões melhores com países que também querem evitar que o Irã se torne uma potência com armas nucleares - disse Hillary, acrescentando que "todas as opções permanecem sobre a mesa".

O tom da sabatina foi muito cordial e Hillary, com o argumento de que agiria apenas depois de consultar os países aliados, recusou-se a adiantar que medidas pretendia tomar nos primeiros dias no cargo. Ela disse pretender fazer um esforço diplomático para sair da "política isolacionista do governo Bush" e afirmou que será prioridade "impedir que armas de destruição em massa caiam nas mãos de terroristas e daqueles que os apoiam".

A senadora democrata, porém, fez questão de sublinhar as diferenças entre o novo governo e o anterior, no que se refere à política externa:

- Os EUA não podem resolver todos os problemas do mundo, mas sabemos que o mundo não pode encontrar soluções sem os EUA. Precisamos de uma política externa em que as ações civis, diplomáticas e humanitárias ganhem um peso maior. Vamos ter uma política externa pragmática, usando múltiplos recursos, e não levando em conta apenas estratégias militares, ainda que elas continuem importantes para garantir a segurança nacional - definiu Hillary. - O presidente eleito e eu acreditamos que a política externa deve se basear num casamento entre princípios e pragmatismo, não em uma rígida ideologia.

O único momento de desconforto da senadora aconteceu durante a arguição do senador republicano Richard Lugar, que apontou as doações para a Fundação Bill Clinton como uma potencial fonte de conflito de interesses. A fundação recebeu pelo menos US$41 milhões de diversas entidades internacionais, inclusive de agências estatais de países do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Qatar.

- Para organizações estrangeiras haverá sempre a suspeita de que fazer uma doação para as atividades da Fundação Bill Clinton seria um caminho para obter favores da secretária de Estado. É imprescindível que todos os nomes dos doadores da fundação sejam divulgados - disse Lugar.

oglobo.com.br/mundo