Título: Uma nova parceria?
Autor: Weber, Demétrio; Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 20/01/2009, O Mundo, p. 25

Obama assume em etapa particularmente promissora das relações Brasil-EUA. Uma nova dinâmica vem se estabelecendo nesse relacionamento. Suas fundações se tornaram mais sólidas com a multiplicação de mecanismos de diálogo, intercâmbio e cooperação. Novas realidades surgiram em tempos recentes. O relacionamento ganhou mutualidade: o Brasil, antes apenas receptor de investimentos, começou a investir nos EUA, passando assim empresas nossas a robustecer a própria estrutura produtiva americana; a abertura da economia e o vigor de nosso crescimento levaram à notável expansão das exportações americanas para nosso mercado; muitas empresas americanas se beneficiam de vultosas repatriações de lucros obtidos por suas subsidiárias, não poucas vezes mais rentáveis aqui do que nas próprias matrizes. Numa expressiva reviravolta, o Brasil, outrora terrivelmente tolhido pelo lastro do endividamento externo, é hoje, depois de China, Japão e Reino Unido, o quarto maior financiador da dívida pública dos EUA, com quase três quartos de nossas reservas de US$200 bilhões colocados em títulos do Tesouro americano.

O relacionamento passou também por notável processo de "amadurecimento". Sofisticou-se a visão que cada parte tem da outra. Há maior reconhecimento recíproco do potencial de colaboração e complementaridade. Brasília tem, na prática, sabido ampliar a pauta de agendas positivas de trabalho em múltiplos campos. No establishment americano - governo, meios empresariais, financeiros e acadêmicos - é hoje o Brasil nitidamente diferenciado não só no contexto regional, mas também como um "BRIC" particularmente promissor. Mesmo no Congresso, onde é menor a percepção do mundo exterior, cresce o interesse pelo Brasil, em especial por seu significado como parceiro em questões energéticas, do etanol ao petróleo.

Paradoxalmente, a própria gravidade da presente conjuntura, com a crise econômica e explosiva instabilidade política em diversas regiões, tende a ampliar a margem de convergência entre os dois países. Com Obama haverá maior comunhão de visões e interesses em questões cruciais, como revisão da arquitetura financeira, reforma da ONU - inclusive do Conselho de Segurança - mudança climática, cooperação energética, combate à pobreza. A tal conclusão leva uma análise do que disse Obama sobre política externa em sua campanha, e do que afirmou Hillary Clinton no Senado. É auspicioso que se proceda agora a uma radical inversão de rumos na política exterior dos EUA, com o abandono da brutalidade do pensamento neoconservador e a afirmação de saudável inclinação ao multilateralismo. Não se tenha, porém, a ilusão de que os EUA se transfigurarão. Ou de que, por mais lúcida e comedida que seja sua atuação, sejam em pouco tempo serenadas as graves crises políticas ou superados os desafios na economia.

No plano bilateral, estão dadas as condições para um largo salto à frente. O contexto em que toma posse Obama, somado à orientação de seu governo, abre oportunidade para um passo histórico em relações por amplas razões providas de sentido verdadeiramente estratégico: fazer-se a transição de relacionamento outrora marcado por desconfianças e antagonismos para nova etapa, em que predominem o sentido de convergência e a disposição de somar forças no enfrentamento de questões decisivas, não só para benefício dos dois povos, mas para o bem da comunidade internacional em seu conjunto. O que está em jogo, em suma, é a possibilidade de erigir-se um sólido sentimento de parceria. De maneira pragmática, realista, sem movimentos espetaculares ou expectativas irrealistas.

Do lado americano, é preciso que o novo governo se aproxime do Brasil com o respeito que o país hoje faz por merecer, a salvo de cobranças ou pressões indevidas. De nossa parte, urge superarem-se os complexos de inferioridade que alimentam, por vezes dentro do próprio governo, tolos sentimentos antiamericanos. É hora de Brasília compreender que nos é de todo conveniente, e perfeitamente possível, estreitar fortemente as relações com os EUA em termos equilibrados e proveitosos, sem que implique isso de modo algum riscos para nossa soberania ou prejuízos para nosso relacionamento com terceiros.

ROBERTO ABDENUR é ex-embaixador do Brasil em Washington