Título: Lula: Obama mudará política equivocada para América Latina
Autor: Weber, Demétrio; Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 20/01/2009, O Mundo, p. 25
Governo brasileiro espera mais espaço para temas deixados de lado por Bush.
BRASÍLIA. A posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, abrirá espaço na agenda internacional para temas deixados de lado na era Bush, avalia a diplomacia brasileira. O governo Lula acredita que Obama fortalecerá o conceito de multilateralismo, seja para combater as mudanças climáticas, a pobreza ou valorizar as operações de paz da Organização das Nações Unidas. Ontem, em seu programa semanal de rádio "Café com o Presidente", Lula afirmou que acompanha com interesse a posse de Obama, que ocorre, segundo avaliou, num momento delicado da política interna e externa americana.
O presidente afirmou acreditar que a política americana para a América Latina deverá mudar. Segundo Lula, durante muito tempo os EUA tiveram uma "política equivocada para a América Latina". Ele lembrou que os americanos tiveram participação em muitos golpes, nas décadas de 60 e 70, na região.
- Eu penso que agora o Obama tem que olhar para a América Latina com um olhar democrático, com um olhar desenvolvimentista, com um olhar de um país importante como os Estados Unidos, que pode ajudar os países periféricos, sobretudo da América Central e do Caribe - disse, voltando a defender o fim do embargo a Cuba. - Acho que é importante que o Obama faça um sinal para Cuba.
Expectativa cerca a área de biocombustíveis
Lula declarou esperar que Obama retome a Rodada de Doha para a flexibilização do comércio, e disse que é importante diminuir a emissão de gases de efeito estufa. Para tanto, defendeu o fortalecimento da matriz energética limpa usando o etanol a partir da cana-de-açúcar.
O governo Lula espera que o relacionamento entre os dois países seja mais afinado ainda.
- A expectativa é de convergência em áreas em que nos últimos anos não houve uma afinidade tão grande - diz o embaixador do Brasil em Washington, Antonio Patriota.
A data do primeiro encontro de Lula com Obama está em aberto. O presidente brasileiro vai a Nova York em 15 de março participar do seminário econômico promovido pelo jornal "The Wall Street Journal", no dia 16. Se depender dele, os dois poderiam reunir-se no dia 17. Mas ainda não há confirmação de audiência na agenda lotada de Obama. Certo mesmo, por ora, é o encontro em 2 de abril, em Londres, quando os dois estarão presentes na reunião do G-20, cujo tema central será a crise financeira.
As incertezas recaem sobre a economia: é grande a expectativa sobre o que Obama fará para minimizar os efeitos da crise financeira mundial.
Na área de biocombustíveis, maior bandeira de Lula no exterior, há receio de que Obama dê um passo atrás, em função das pressões de produtores de milho de Illinois, estado onde foi eleito senador. Durante a campanha presidencial, Obama acenou com um discurso protecionista para garantir os votos dessa fatia do eleitorado que teme a concorrência do etanol brasileiro.
- Nisso, ele manifestou uma atitude menos favorável à eliminação da tarifa (de importação) do que o candidato (republicano John) McCain. Mas é um assunto que poderá evoluir.
Patriota lembra que o presidente George W. Bush tentou derrubar a tarifa de importação, mas esbarrou num Congresso dominado pelo Partido Democrata desde 2006.
Para Virgílio Arraes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), é equívoca a ideia de que McCain relaxaria medidas protecionistas:
- Era uma esperança ilusória. Nos Estados Unidos, o Congresso é que decide. E fica muito difícil para um presidente superar isso. O voto é distrital, os parlamentares são protecionistas - afirma Arraes.
Região não é prioridade, diz cientista político
O professor destaca que "está muito bom" o relacionamento do Brasil com os EUA. Em 2008, o volume de importações e exportações bateu recorde, atingindo US$53 bilhões, segundo o embaixador Patriota. O superávit ficou em US$1,8 bilhão.
Para João Paulo Peixoto, cientista político e professor de Administração Pública da UnB, a posse de Obama não trará mudanças significativas na relação do Brasil com os Estados Unidos.
- A América Latina não está na ordem de prioridade da política externa americana há anos. Não consigo ver nenhum fator, a não ser a questão do biocombustível, que possa alterar essa relação. Os EUA têm problemas muito mais graves para resolver - diz Peixoto.
Patriota vê semelhanças entre Lula e Obama que vão além da trajetória pessoal:
- Tanto o presidente Lula como Obama tiveram que superar o preconceito de suas sociedades. Eles têm outras características em comum: a atenção dada aos setores mais vulneráveis da sociedade e a disposição ao diálogo com interlocutores que não compartilham pontos de vista semelhantes.
Patriota representará Lula na posse de Obama. É praxe em Washington que diplomatas assistam à posse no lugar dos chefes de Estado. Parte da solenidade é na rua. Com temperaturas abaixo de zero nos últimos dias, Patriota diz que serão distribuídos cobertores à plateia.
- Vou sobreviver - brinca o embaixador.