Título: Crise entre ministros
Autor: Bruno, Cássio
Fonte: O Globo, 26/01/2009, O País, p. 3

Minc reage a queixa de Stephanes e chama Dilma para intervir na briga ambiental.

Oministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, rebateu as críticas feitas pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, e desencadeou mais uma crise no primeiro escalão do governo Lula na área ambiental. O embate se agravou após Stephanes afirmar, em entrevista publicada ontem pelo GLOBO, ter ressentimentos com Minc, principalmente envolvendo assuntos como a revisão do Código Florestal brasileiro e o desmatamento. No meio do fogo cruzado, Minc acusou Stephanes de ser contrário ao diálogo e de ter sido indelicado em suas declarações - entre elas, a de que o verde teria o hábito de combinar uma coisa em reuniões e anunciar outra à imprensa, a fim de prejudicá-lo. Minc anunciou que pediu à chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que faça a mediação do conflito. A intervenção, segundo o ministro do Meio Ambiente, servirá para resolver os impasses.

- A relação não é ruim. Mas ele ficou estressado com essas discussões. Ele é avesso ao diálogo. Foi indelicado. Acho que o Stephanes perdeu a paciência, se descompensou. Estou preocupado com a ruptura do diálogo. Ele é que rompeu, é bom que se diga. E não foi só comigo, não. Ele se descompensou com a frente ambientalista do Congresso, presidida pelo Sarney Filho, e com o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Agrário, dizendo, por exemplo, que ele era um ambientalista e não defendia a pequena produção - criticou Minc.

Na entrevista, Stephanes rejeitou ser rotulado de vilão verde. Disse que seus técnicos são mais qualificados para preservar o meio ambiente que os de Minc, sendo preciso "readquirir a confiança" na relação entre as pastas. Magoado por ser tratado como "líder dos ruralistas", Stephanes condenou o fato de Minc ter dito que "ele defendeu 50% do desmatamento da Amazônia", em referência à questão das áreas consolidadas do Centro-Sul. Stephanes, então, atacou: "Ou Minc não entendeu nada ou não foi correto".

"Falta consciência ao agronegócio"

A mediação de Dilma Rousseff deverá ocorrer somente em fevereiro.

- Quero criar um grupo de trabalho interministerial, envolvendo os dois ministérios, o Congresso, universidades e especialistas. Só assim teremos uma solução - anunciou o ministro do Meio Ambiente.

As negociações dentro do governo em torno de mudanças no Código Florestal vêm provocando impasse. A crise se agravou após a última reunião para discutir as mudanças no código, quando Stephanes defendeu a anistia para quem desmatou Áreas de Proteção Permanente (APPs).

- O agronegócio quer demolir as defesas do código. Eles não aprenderam com a tragédia de Santa Catarina, ocasionada por uma combinação de um evento climático e erros ambientais terríveis. E uma das teses do Stephanes é justamente afrouxar as defesas das APPs. Pois foi exatamente o desmatamento dessas áreas o corresponsável pela tragédia. Se levarmos a tese dele ao extremo, nós poderemos ter outra tragédia - afirmou Minc.

Ele negou estar em conflito com representantes da agricultura familiar:

- Quero frisar que o Ministério do Meio Ambiente e a agricultura familiar estão alinhados. Stephanes está querendo dizer que nós, do Meio Ambiente, estamos em guerra com a agricultura familiar. Eu nego. Temos uma ampla aliança. Quem está com menos consciência é o agronegócio, que ele representa com monocultura, desmatamentos e agrotóxicos.

Minc e Stephanes vêm mantendo uma relação de altos e baixos desde a entrada do primeiro no ministério, em maio do ano passado, no lugar de Marina Silva. A ministra também teve embates públicos com o colega da Agricultura sobre a preservação ambiental limitar a expansão do agronegócio - queda-de-braço que Marina acabou perdendo.