Título: Obama sob telhado de vidro
Autor: Berlincl, Deborah; Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 31/01/2009, Economia, p. 23
Brasil e UE podem contestar pacote protecionista na OMC. EUA avaliam rever cláusula
A inclusão da cláusula "Compre América" no pacote de estímulo econômico dos EUA abriu a primeira frente de conflito do governo de Barack Obama, ao exigir que o aço usado em obras de infraestrutura financiadas pelo plano seja de origem americana. A medida, considerada protecionista, foi alvo de críticas ontem tanto no Fórum Econômico Mundial como no Fórum Social Mundial. Em Davos, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, não descartou a possibilidade de o Brasil se aliar à União Europeia (UE) em uma possível contestação da norma na Organização Mundial de Comércio (OMC). Em Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez coro às queixas ao afirmar que a visão protecionista é um "equívoco".
- Provavelmente apoiaríamos (a contestação da UE). Mas não vamos falar em ameaça agora. É claro que é uma medida ruim. E espero que ela ainda possa ser modificada - disse Amorim, em referência à cláusula americana.
A cláusula consta do pacote de US$819 bilhões aprovado pela Câmara de Representantes dos EUA e afeta diretamente o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de aço. A reação à medida já acendeu o alerta amarelo na Casa Branca. Ontem, seu porta-voz, Robert Gibbs, disse que "o governo está revendo o assunto, como parte do plano de recuperação". Mas não deu garantia de que a medida será revogada. Pelo contrário. Os senadores - que votarão o pacote na próxima semana - querem que a condição seja ampliada para quaisquer produtos manufaturados, criando uma reserva de mercado total. O Conselho Empresarial e Industrial dos EUA endossou a idéia. Já a Câmara de Comércio Americana divulgou nota condenando o dispositivo.
Amorim defendeu que o governo brasileiro e os demais países "façam lobby" junto aos congressistas americanos para eliminar os aspectos protecionistas do pacote. Ele chamou atenção para a contradição entre o que disse Obama num telefonema para o presidente Lula, logo após sua eleição, e o que está no plano. No telefonema, Obama se declarou favorável à Rodada de Doha, as negociações na OMC para abertura do comércio internacional.
- As duas coisas (o telefonema e o pacote) não vão no mesmo sentido. Esses aspectos terão de ser esclarecidos - disse o ministro. - Se o protecionismo vingar nos EUA, vai vingar em todo o mundo.
Ontem, em Davos, sem citar especificamente os EUA, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, fez um alerta aos "líderes que estão se movendo na direção do protecionismo":
- Sabemos que protecionismo não protege ninguém, menos ainda os mais pobres.
Para Lula, protecionismo é "equívoco"
Na mesma linha, o ministro das Finanças do Canadá, Jim Flaherty, disse no Fórum que "os líderes estão de acordo em que protecionismo é a última coisa de que o mundo precisa". E Felipe Calderón, presidente do México, afirmou que os líderes do G-20, que vão se reunir em abril, em Londres, para discutir a crise, têm de "rejeitar o protecionismo".
- Isso (protecionismo) pode ser a mais perigosa ameaça à situação atual. Precisamos aprender com as crises dos anos 20 e 30: o protecionismo atrasou a saída da crise.
Em Belém, Lula fez duras críticas à cláusula protecionista do pacote de Obama.
- O presidente Obama tomou uma decisão de que os novos investimentos (na realidade investidores) dele terão de utilizar aço nacional. Se isso é verdade, é um equívoco. O protecionismo, neste momento, vai agravá-la - disse Lula, após se reunir com o presidente paraguaio, Fernando Lugo, e com a ex-candidata socialista à presidência da França, Segolène Royal.
Lula sustentou que os países ricos defendiam a globalização e o livre comércio. Mas, com a crise, inverteram o discurso:
- É importante que os países ricos não se esqueçam nunca de que foram eles que inventaram essa história de globalização. Não é justo que, agora, eles esqueçam o discurso do livre comércio e passem a ser os protecionistas que nos acusavam de ser.
O presidente disse ainda que, no encontro do G-20 em abril, defenderá a regulação do sistema financeiro. E acusou os países desenvolvidos de não saberem o que fazer diante da crise:
- Os países ricos não sabem o que fazer. Ainda não vi o FMI dar palpite, o Banco Mundial dizer o que fazer. Quando a crise era no Brasil, todo mundo sabia o que fazer. O calo no pé dos outros é mais fácil.
Ao ser perguntado se havia desistido de ir ao Fórum Econômico de Davos, Lula afirmou:
- Não desisti de Davos. Fui lá quando achei interessante ir e vou ao Fórum Social quando acho interessante ir.
COLABOROU José Meirelles Passos, correspondente, de Washington