Título: Lá eles nos trataram como cachorros
Autor: Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 01/02/2009, O País, p. 11
Passageiros reclamam de abuso da polícia espanhola.
SÃO PAULO. O ministro do Turismo, Luiz Barretto, considerou que houve uma melhora em relação à crise de imigração do ano passado com a Espanha, mas considerou que "o problema não foi solucionado". A assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores no Brasil ponderou que houve uma queda de 28% no número de brasileiros que tiveram sua entrada negada entre 2007 e 2008, segundo dados informados pela polícia de imigração espanhola. Mas não considerou que, no período, o movimento no aeroporto de Barajas sofreu uma baixa de mais de um milhão de passageiros, caindo de 52,1 milhões, em 2007, para 50,8 milhões em 2008.
Os dados divulgados na Espanha pela polícia de imigração em Barajas são um pouco diferentes dos que foram apresentados ao governo brasileiros. Dos 12 mil vetados em Barajas no ano passado, 2,5 mil seriam brasileiros, o que representa 20,8%. No ano anterior, os 2.764 brasileiros teriam sido deportados naquele aeroporto, (15,8% dos 17.408 estrangeiros retidos em Barajas). Proporcionalmente, o problema teria se agravado de 2007 para 2008.
A polícia de imigração espanhola estima que, além dos 70 mil brasileiros legalizados ou em processo de legalização na Espanha, outros 70 mil vivam na ilegalidade. Em 2001, os brasileiros não chegavam a 20 mil pessoas, segundo o Itamaraty.
Detenção irregular provocou criação de sala adequada
As denúncias de abuso da polícia de imigração têm sido feitas pelas próprias entidades sindicais na Espanha nos últimos anos. Em 2004, os sindicatos denunciaram a existência de uma sala secreta onde os passageiros ficariam detidos por mais de dez dias, sem o conhecimento das autoridades judiciárias. No ano passado, em razão da detenção irregular de uma brasileira, a Justiça obrigou Barajas a abrir uma sala adequada para abrigar os estrangeiros que estivessem em processo de averiguação. O GLOBO procurou a Embaixada da Espanha no Brasil, mas não conseguiu contato.
Para o Itamaraty, os brasileiros devem separar o que são maus-tratos do que é "falta de cordialidade". A assessoria de comunicação avaliou que os espanhóis podem ter formas de tratamento que podem ser consideradas "bruscas para os padrões brasileiros".
- Eles nos trataram como cachorros. Fomos obrigados a ficar sentados todo o tempo em que eles (os policiais e oficiais de imigração) estavam perto. Não podíamos nos levantar nem para fazer uma pergunta. Não houve agressão física, mas psicológica. Gritavam conosco - conta Mariana.
A designer fazia parte do grupo de oito brasileiros obrigados a retornar depois de dez horas de espera em uma sala da imigração em Barajas. Segundo ela, o alvo dos agentes são "mulheres sozinhas ou com crianças".
- Chorei o tempo todo. Outros brasileiros estavam mais calmos, mas depois choraram. Porque os brasileiros têm aquela coisa de achar, sentir, que no final vai dar tudo certo. Como eu falava espanhol, falei para um dos guardas que parecia Guantánamo e ele respondeu que perigoso era ficar retido na América do Sul ou na África. "Isso é uma democracia", ele falou.