Título: Obama e o Brasil
Autor: Paulo Nogueira Batista Jr.
Fonte: O Globo, 24/01/2009, Opinião, p. 7

Depois da posse de Barack Obama, o clima aqui nos Estados Unidos é de intensa vibração e autoexaltação. O patriotismo americano está dando "arrancos triunfais de cachorro atropelado", como diria Nelson Rodrigues. A eleição de um afro-americano para a Presidência da República comprova, segundo os americanos, que os Estados Unidos são uma nação especialíssima. O próprio Obama adotou esse tom no seu discurso inaugural.

No dia da posse, saí de casa para ver a multidão. Mal se conseguia andar nas ruas. Um em cada dois americanos carregava a sua bandeirinha. Mesmo em tempos normais, diga-se de passagem, a bandeira é exibida com orgulho, nas casas, nos automóveis, prédios públicos e estabelecimentos comerciais aqui em Washington. No Brasil, não. Um brasileiro típico nunca carrega uma bandeira nacional - a não ser em época de Copa do Mundo e aí por motivos estritamente futebolísticos.

O que o Brasil pode esperar do governo Obama? Há motivos para uma expectativa favorável. Os primeiros anúncios na área internacional parecem promissores. Por exemplo: a decisão de fechar a base de Guantánamo dentro de um ano. Ou o início do processo de retirada das tropas americanas do Iraque.

O secretário indicado do Tesouro, Timothy Geithner, respondendo a perguntas no Senado, afirmou: "O presidente Obama tem dito que quer reformar o FMI para aumentar a representação dos países em desenvolvimento. Precisamos mandar um sinal forte de que estamos prontos a dar aos países em desenvolvimento dentro do FMI uma voz que corresponda à sua importância na economia mundial."

Os primeiros movimentos e ruídos foram animadores, portanto. Mas não se pode exagerar na celebração. Os latino-americanos costumam ser campo fértil para certo tipo de ilusão no relacionamento com os Estados Unidos.

Em alguns países, os sintomas de exagero e até de subserviência são bem nítidos. No México, por exemplo. Em visita recente a Washington, o presidente mexicano, Felipe Calderón, parecia empenhado em agradar. Segundo editorial do "Washington Post", Calderón afirmou que vinha observando desde 2002 "um aumento de sentimentos antiamericanos na América Latina, o que é preocupante". E acrescentou, obsequioso, que Barack Obama "tem a liderança e a credibilidade para mudar essa situação rapidamente e restaurar a liderança dos Estados Unidos - a liderança natural, se posso dizê-lo - da região".

Liderança natural da região? Não, Sr. Calderón, não pode dizer, não. Fale pelo México, se quiser. Mas não se arvore em porta-voz ou intérprete de outros países. Que futuro tem uma nação que se apressa a reconhecer a liderança "natural" do presidente recém-eleito de uma outra nação, por mais poderosa que ela possa ser? O Brasil, quero crer, não aceita mais a liderança natural de ninguém. Está pronto a cooperar com o novo governo americano, claro, e tem razões para depositar esperanças em uma mudança para melhor da política econômica e da política internacional dos Estados Unidos.

Seja como for, todo cuidado é pouco. O nosso comportamento mais altivo é recente. E o brasileiro, embora mais independente do que o mexicano e outros latino-americanos, está longe e imune às seduções e manobras de um governo americano habilidoso e diplomático, como será provavelmente o governo Obama. O tempo talvez mostre que, para países como o Brasil, era mais fácil lidar com o companheiro Bush.

A postura do Sr. Calderón não leva a lugar algum. Os mexicanos pouco têm conseguido de positivo com isso. Na realidade, americano não respeita (nem entende) esse tipo de postura. Tiram proveito, obviamente, mas acabam desenvolvendo certo desprezo pelo interlocutor subordinado.

A mentalidade americana é - e sempre foi - completamente oposta. Como disse George Washington em seu discurso de despedida: "A História e a experiência mostram que a influência estrangeira é um dos inimigos mais perniciosos de um governo republicano."

Sem esse nacionalismo vigilante e desconfiado, os Estados Unidos nunca teriam chegado a ser o que são.

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional. E-mail: pnbjr@attglobal.net