Título: Não cortaremos nenhuma obra
Autor: Gois, Chico de; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 11/02/2009, O País, p. 3
Lula pede apoio de prefeitos para PAC e diz que imprensa "abusa de sua inteligência".
Num discurso de 50 minutos, no qual sobraram críticas à imprensa e elogios aos prefeitos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou ontem do Encontro Nacional de Prefeitos, onde tentou demonstrar que é amigo dos governantes municipais e adversário do que considera burocracia excessiva. O presidente disse que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sua principal aposta para enfrentar a crise e ajudar a eleger seu sucessor, precisa da parceria dos municípios. A chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, subiu ao palco ao lado de Lula e foi muito aplaudida, mesmo sem discursar. Para enfatizar a importância do PAC, Lula disse que é preciso acelerar as obras e que os recursos não vão faltar. O encontro foi realizado no mesmo dia em que o PT comemorou seus 29 anos de fundação com um jantar num clube de Brasília, para o qual eram esperados prefeitos petistas.
- Cortaremos o batom da dona Dilma e o meu corte de unha, mas não cortaremos nenhuma obra do PAC - discursou Lula para uma plateia de mais de cinco mil prefeitos e outras 10 mil pessoas, segundo os organizadores do encontro, patrocinado pelo Palácio do Planalto
Lula assinou as medidas do pacote de bondades que o governo anunciara. Entre elas, a possibilidade de parcelamento de débitos das prefeituras com o INSS por até 20 anos, inclusive para quem já fizera acordo em 2004 e não pagou as parcelas. O presidente elogiou os prefeitos, dizendo que eles são a "essência da democracia". Ele atribuiu a reeleição ou eleição de vários mandatários às ações do governo federal:
- Isso aconteceu porque os prefeitos brasileiros nunca tiveram nas suas cidades a quantidade de políticas sociais e de obras públicas como tivemos nos últimos anos por conta do PAC.
Segundo o presidente, dos 5.563 municípios, 5.200 têm ações que envolvem o governo federal. Ele também criticou a imprensa. Disse que havia acordado "meio frustrado" ontem:
- Tem dia que a gente acorda virado. Se deixar cair um pingo de suor num copo, vira limonada. Fiquei triste como leitor. Fiquei triste porque estão abusando da minha inteligência. Fiquei triste porque ainda tem gente que acha que o povo é marionete, é vaca de presépio, é comboio. Acabou o tempo que alguém achava que podia interferir numa eleição porque achava que era formador de opinião pública. Se fosse assim, muitos de vocês não estariam eleitos.
Para Lula, as reportagens não deram espaço à defesa. Sem citar O GLOBO, disse que um jornal deu espaço para leitores atacarem os prefeitos.
- Um (jornal) foi mais longe. Procurou carta de leitor para publicar na matéria, dizendo: "Como é que o presidente vai dar dinheiro para prefeito bandido". E eu fiquei pensando como é fácil julgar as pessoas.
Dilma chega a jantar com discurso de candidata
Lula também rebateu as críticas de que o evento de ontem serviria para projetar Dilma como sua pré-candidata à Presidência em 2010.
- Disseram que é um ato para promover a dona Dilma Rousseff. São pessoas pequenas. Graças a Deus, na minha vida nunca tive bondade. Nunca tive um favor. Nunca fui eleito porque a imprensa ajudou. Fui eleito porque suei cada gota de suor, cada gota de lágrima para enfrentar o preconceito, o ódio dos de cima contra os de baixo.
Lula disse que nem poderia estar falando aquilo, porque um presidente deve ter postura:
- Posso perder minha postura, mas não perco minha vergonha e não perco meu caráter. Não posso permitir insinuações grotescas.
Lula disse que pretende fazer parcerias, e não conceder facilidades.
- O que queremos com esta reunião não é criar facilidades, mas criar compromissos.
O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CMN), Paulo Ziulkoski, voltou a elogiar o parcelamento da dívida com o INSS, mas cobrou que a instituição siga jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), que considera que dívidas vencidas há cinco anos devem ser consideradas caducas. Saiu sob aplausos.
À noite, a ministra Dilma chegou ao jantar do PT com discurso de candidata: afirmou que acredita na manutenção da parceria entre o partido e o PMDB para 2010 e que é muito importante que o PT consiga construir as alianças em torno de legendas que "estão no espectro progressista do país". Sobre a proposta do PT de que ela viaje mais pelo país, para ter contato com os partidos e movimentos sociais, Dilma disse que ainda não recebeu a sugestão, mas concorda:
- Espero que eles me contem o mais rápido possível. Um dos papéis do governo é sair dos gabinetes. Vou aceitar a sugestão e não só fazer discussão com a população, mas com partidos políticos, pois eles é que sustentam nosso governo. É fundamental dar satisfação para eles.