Título: Mais US$2 tri para bancos nos EUA
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 11/02/2009, Economia, p. 19
Tesouro americano eleva pacote de socorro ao setor e destina mais recursos a famílias.
Aexpectativa era a de se ouvir o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciar as novas condições, mais rígidas, para o desembolso dos US$350 bilhões que faltavam ser distribuídos do pacote de US$700 bilhões aprovados no governo passado, para salvar bancos e instituições financeiras em geral. Mas ele surpreendeu a todos anunciando ontem uma injeção de capital muito maior no mercado: um total de US$2 trilhões. E o objetivo, como ressaltou, deixaria de ser apenas o de proteger aquelas instituições, dando mais ênfase ao socorro "às empresas e famílias que dependem dos bancos".
Com a aprovação no Senado, na tarde de ontem, de um pacote de estímulo econômico de US$838 bilhões - a serem aplicados em infraestrutura, educação e criação de empregos - e que até este fim de semana deverá ser reconfirmado pela Câmara, onde o governo tem maioria absoluta, o presidente Barack Obama iniciaria o seu governo investindo um total de quase US$3 trilhões para enfrentar a pior crise que o país já enfrentou desde a Grande Depressão, nos anos 30.
Geithner fez de tudo para garantir à população que, desta vez, o dinheiro público será empregado de forma efetiva e transparente. Além de um maior rigor na avaliação das instituições financeiras, para saber quais realmente necessitam da ajuda - e de quanto cada uma delas necessita - ele disse que todas as operações poderão ser acompanhadas por qualquer pessoa, através da internet. Ou seja: além da prometida fiscalização mais incisiva de agências governamentais, os próprios contribuintes poderiam exercer uma vigilância direta.
- Acreditamos que o acesso (dos bancos) à ajuda pública é um privilégio, não um direito. Quando o nosso governo auxilia os bancos, isso não é para benefício deles: é para as empresas e famílias que dependem dos bancos, e em benefício do país - afirmou Geithner.
Ele não poupou críticas ao governo de George W. Bush, cuja primeira metade do pacote de US$700 bilhões acabou sendo desperdiçada, uma vez que, em vez de colocar o dinheiro no mercado - reabrindo o acesso ao crédito -, os bancos beneficiados acabaram utilizando os fundos para adquirir outros bancos ou apenas reforçar o seu caixa.
Empréstimos podem ter até US$1 tri
Depois de dizer que as ações tomadas pelo então secretário do Tesouro, Henry Paulson, eram "absolutamente essenciais, mas foram inadequadas", Geithner disse que elas não foram suficientemente abrangentes ou realizadas com a rapidez necessária para "resistir às pressões trazidas pela crise financeira". Ele arrematou dizendo que aquela medida, na prática, acabou por aniquilar a confiança dos americanos no governo:
- O espetáculo de enormes quantias de dinheiro dos contribuintes sendo fornecidas às mesmas instituições que ajudaram a causar essa crise, com limitada transparência e vigilância, aumentou a suspeita do público. Nosso desafio hoje é muito maior porque o povo americano perdeu a fé nos líderes de nossas instituições financeiras e estão céticos quanto a se o governo usou o dinheiro dos contribuintes em benefício deles.
Além de estabelecer regras mais rigorosas para a obtenção de dinheiro do governo, por parte das instituições em apuros, Geithner apresentou um programa de arquitetura complexa envolvendo quatro fontes específicas de financiamento. A primeira é composta dos US$350 bilhões que faltavam ser desembolsados.
A segunda é a criação de um fundo conjunto do Tesouro e do Fed (o banco central americano), num total de US$500 bilhões. A terceira é a expansão de um programa já existente no Fed (hoje de US$200 bilhões) para até US$1 trilhão - e que seria utilizada para compra de ativos com garantia em empréstimos para compra de carros, para liquidar dívidas com cartões de crédito, e pagamento de mensalidades escolares.
Os US$250 bilhões restantes o governo pretende levantar no próprio mercado. Seriam aplicações privadas, para a compra (com garantia do governo) de papéis podres que estão nos cofres dos bancos. Elas seriam feitas pelo Fundo de Investimento Público-Privado, entidade já definida como "banco ruim", a ser formada entre o Fed, a FDIC (agência federal que garante depósitos bancários) e o setor privado. Ela adquiriria títulos que os bancos hoje não conseguem vender, justamente porque valem muito pouco e não há garantia para um potencial comprador de que conseguirá negociá-lo mais adiante.
Ao comentar o assunto, o próprio Obama tocou na questão que ainda permanece como uma incógnita e que poderá resultar na necessidade de injetar ainda mais dinheiro na praça, dependendo da avaliação que o governo começará a fazer verificando os livros contábeis dos bancos:
- Parte do problema, agora mesmo, é que ninguém sabe realmente o que está registrado nos livros dos bancos. Nenhum deles tem certeza de que tipo de prejuízo está anotado lá. Nós precisamos abrir isso e restaurar alguma confiança - afirmou Obama.
"Cometeremos erros", diz Geithner
O mercado reagiu mal. O índice Dow Jones teve uma queda de 4,62%; e o Standard & Poor"s caiu 4,91%. No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) recuou 2,12%. O motivo, segundo analistas do setor, foi a falta de detalhes nos planos revelados por Geithner:
- Continua sendo extremamente incerto como isso tudo será feito e como o Tesouro seduzirá investidores a fazer algo que eles vêm evitando desde o começo dessa crise - disse Tony Crescenzi, da Miller Tabak & Co.
Por sua vez, Axel Merk, responsável pelo portfólio de investimentos da Merk Funds, ponderou:
- O que acontece é que simplesmente não há como avaliar esses bens (podres). O que vimos hoje é um pouco desanimador. Acho que o mercado esperava e merecia mais.
Antecipando-se às reações negativas, Geithner sugeriu, ao fim de seu anúncio, que correções deverão ser feitas pelo caminho, pois "estamos diante de um desafio mais complexo do que qualquer outro já enfrentado pelo sistema financeiro". E arrematou:
- Vamos ter de nos adaptar à medida em que as condições mudem. Teremos que tentar coisas que jamais tentamos. Cometeremos erros. Atravessaremos períodos em que as coisas vão piorar e o progresso será irregular ou interrompido. Mas seremos guiados pelos princípios da transparência e da responsabilidade em prestar contas.