Título: Drogas e violência não são um problema só de polícia
Autor: Amora, Dimmi
Fonte: O Globo, 12/02/2009, O Mundo, p. 27
O matemático colombiano Antanas Mockus, de 56 anos, fez as contas e elas não fecham. O aumento da política de repressão ao uso e ao tráfico de drogas não reduziu o consumo e fez crescer a violência a ele associada. Ex-reitor da Universidade da Colômbia, Mockus ficou conhecido pelas políticas implementadas quando, por duas vezes, foi prefeito de Bogotá. Ele defende que as forças de segurança atuem de forma integrada com os políticos no combate ao crime.
Em que as lições de Bogotá podem servir para o mundo no combate à violência associada às drogas?
ANTANAS MOCKUS: Bogotá serviu para mostrar que muitos dos problemas da sociedade não dependem da lei para serem resolvidos. A polícia e o sistema judiciário não devem ser os primeiros na regulação da vida das pessoas. É possível fortalecer a sociedade para que ela se autorregulamente e, só após o fracasso desta regulamentação, o sistema judicial entre.
A interferência do Estado sobre a sociedade então, a seu ver, é excessiva?
MOCKUS: Há regulamentos sociais e morais que valem mais que a lei. O adultério se regula por convenções sociais e morais. Imagine se fosse um delito apertar um pouco mais alguém numa dança? Como a polícia faria para policiar? Se algo assim acontecer as pessoas vão resolver. Defendemos que cada país tenha o direito de implementar suas políticas sobre drogas.
Como fazer isso já que há uma visão bastante intransigente dos EUA em relação ao tema uso de drogas?
MOCKUS: A discussão com os EUA é muito importante se quisermos uma política mais flexível em relação ao tema. Mas precisamos avançar em outros temas.
Quais?
MOCKUS: É preciso criar políticas em que o uso de drogas passe a ser socialmente rejeitado. A sociedade recrimina quem oferece drogas para crianças. Então, temos que fazer com que o uso de drogas também passe a ser moralmente condenável. Precisamos que menos pessoas usem drogas e, quem ainda usar, tenha menos risco para a saúde, e ajudar a tirar quem está traficando drogas deste mercado.
Como assim?
MOCKUS: O tempo de vida de um jovem latino-americano que entra no tráfico cai em média de 70 anos para menos de 30. Quantos talentos, quanta força de trabalho estamos perdendo? Precisamos dizer a estes jovens que a vida deles também é sagrada e que há risco para eles. Para isso, é preciso implementar políticas. Eles estão como tateando o mundo e têm pressa de serem reconhecidos socialmente. É preciso incentivar políticas que possam levá-los a outros reconhecimentos fora do universo das drogas.
No Brasil, os prefeitos não têm, como na Colômbia, ingerência sobre as forças de segurança. Diante disso, o que uma cidade pode fazer para ajudar no combate à violência?
MOCKUS: Não é difícil constituir uma comissão para que se sentem à mesa forças policiais e da municipalidade para compartilhar informações e criar políticas conjuntas para resolver os problemas. O tráfico e a violência têm expressões geográficas distintas. Podem ser maiores numa área e menores na área vizinha. É preciso ter a consciência de que drogas e violência não são um problema só de polícia. São um problema de saúde pública, educação e da sociedade. (D.A.)