Título: Demitido da Embraer e sem opção de trabalho
Autor: Barbosa, Adauri Antunes
Fonte: O Globo, 22/02/2009, Economia, p. 21

Vários dos trabalhadores que perderam seus postos exerciam funções especializadas da indústria de aviões.

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS (SP). Entre os mais de 4.200 funcionários que a Embraer demitiu na semana passada, o equivalente a 20% de sua força de trabalho, muitos exerciam funções que só existem em uma fábrica de aviões. Isso significa que não serão poucos os que terão não apenas de procurar outro emprego, mas uma nova profissão.

Em duas áreas da produção (de material composto e o chamado shoot peeling, típicas de uma indústria que produz aeronaves), não existem funções iguais ou semelhantes em qualquer outro setor industrial brasileiro. Na seção de material composto, que tem cerca de mil funcionários, são produzidos em fibra de carbono as peças e o material que vai dentro do avião, muito resistente e leve. No shoot peeling são trabalhadas as peças usinadas, que passam por altas temperaturas e são moldadas.

De 1.400 especialistas, 30% foram mandados embora

Além dessas duas áreas, há também muitos trabalhadores especializados nas áreas de montagem. Procurada durante toda a sexta-feira, a Embraer não se pronunciou sobre o assunto.

Um funcionário da empresa que escapou da lista dos demitidos da semana passada acredita que, dos aproximadamente sete mil empregados da linha produtiva, pelo menos 20% (1.400) têm funções que só existem na Embraer, ou em uma fábrica de aviões. E desses 1.400 especialistas, quase 30% foram demitidos na última quinta-feira.

Foi o caso do mecânico Júlio César Freitas, de 34 anos, nove de Embraer, que estava de licença médica por causa de um estiramento na panturrilha. Ele foi chamado pelo Departamento de Recursos Humanos na quarta-feira, que o informou de que deveria voltar imediatamente. Quando Freitas voltou, na quinta-feira, foi demitido. Especialista em usinagem química, o processo que faz a redução do peso da fuselagem dos aviões, o único lugar onde poderia trabalhar no Brasil era na Embraer.

Pai de um filho de 8 anos e com a mulher em casa cuidado da criança, ele ainda estava chocado na sexta-feira, quando foi ao Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos para buscar seus direitos.

- Vou ter de me conscientizar que tenho de procurar alguma outra coisa, um trabalho diferente. Mas eu espero que o governo federal tome alguma medida para reverter essa situação - afirmou.

Técnico mecânico por formação, Freitas vai precisar de algumas semanas para se recuperar da contusão e poder sair em busca de uma nova oportunidade de trabalho.

- Como na Embraer está a única usinagem química do Brasil, acho que vai ser muito difícil eu conseguir alguma coisa nessa área. Um amigo, que saiu da empresa há algum tempo, queria continuar na usinagem e teve de se mudar do Brasil: foi para o Canadá - contou Freitas.

Empresa revê vendas e investimentos para baixo

Terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, a empresa afirmou que os cortes foram necessários para enfrentar uma "crise sem precedentes", que já provocou o adiamento ou cancelamento de novos pedidos e uma redução em 30% do ritmo na linha de produção. No ano passado, entre demissões e contratações, a empresa fechou quase 700 postos.

Os cortes atingiram os funcionários da Embraer no Brasil e no exterior: a empresa tem unidades próprias em França, Cingapura e Estados Unidos. Só em São José dos Campos (SP), sede da companhia, são mais de 13 mil empregos diretos. A Embraer também reviu a estimativa de entrega de jatos neste ano - de 270 para 242, o equivalente a uma receita de US$5,5 bilhões - e o volume de investimentos - de US$450 milhões para US$350 milhões.