Título: Gigante bancário, ganho menor
Autor: Novo, Aguinaldo; D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 26/02/2009, Economia, p. 21
Inadimplência com a crise e gastos de fusão fazem lucro de Itaú Unibanco cair a R$7,8 bi
Oagravamento da crise econômica global no último trimestre do ano passado afetou os resultados do Itaú Unibanco em 2008. A maior instituição financeira do país, além de ter tido gastos extras com a integração de operações, foi obrigada a aumentar as provisões para cobrir o crescimento da inadimplência. O grupo, que teve sua fusão anunciada em 3 de novembro, registrou lucro líquido contábil de R$7,8 bilhões no ano passado, contra R$8,474 bilhões em 2007. Para efeito de comparação, o Itaú Unibanco divulgou também uma simulação para os resultados no ano caso os dois bancos já estivessem associados desde janeiro. Outra vez, houve queda, de R$11,9 bilhões para R$10 bilhões.
Devido à expectativa de piora dos índices de inadimplência, a instituição fez provisões adicionais de R$4,7 bilhões para operações de crédito. O balanço publicado ontem mostra que a deterioração do cenário econômico interrompeu a trajetória de recuo da inadimplência, que voltou a crescer após setembro, mês da quebra do banco americano Lehman Brothers - considerada o marco do agravamento da crise internacional. O índice geral subiu de 4,6% para 4,8% da carteira, mas no segmento de pessoa física passou de 7,9% para 8,1%.
Insistindo que o "cenário ainda é muito incerto", o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, já considera reduzir a previsão de crescimento da carteira de crédito neste ano - em 15%. Em 2008, o total de empréstimos chegou a R$271,9 bilhões, com alta de 34%.
- Gostaria de reavaliar esses números (de crescimento do crédito) em função da situação de hoje - afirmou ele, acrescentando que o banco passou a ser mais seletivo na concessão de novos financiamentos e que a demanda por crédito também caiu entre 15% e 20% desde a piora da crise.
Setubal fala ainda em inadimplência recorde neste ano.
- Vamos passar com folga neste ano - disse, referindo-se às estatísticas do Banco Central.
Nas Américas, grupo fica em 5º lugar
O resultado publicado pelo Itaú Unibanco ficou pouco acima do divulgado pelo Bradesco (de R$7,62 bilhões), mas abaixo do alcançado pelo Banco do Brasil (R$8,803 bilhões). Os analistas chamam a atenção, porém, para o chamado resultado recorrente dos bancos, que exclui efeitos (ganhos ou perdas) extraordinários. Neste caso, a nova holding financeira registra ganho superior a de seus principais concorrentes - R$8,3 bilhões, contra R$7,6 bilhões do Bradesco e R$6,7 bilhões do BB. O Itaú Unibanco também é líder em ativos (R$632,7 bilhões) e patrimônio (R$43,6 bilhões).
Na comparação com bancos do continente americano, o Itaú Unibanco ficou na quinta posição, segundo levantamento feito pela consultoria Economática a pedido do GLOBO. O grupo, com lucro equivalente a US$3,339 bilhões em 2008, deixou para trás gigantes, como Goldman Sachs (US$2,322 bilhões), Morgan Stanley (US$1,707 bilhão) e Bank of NY Mellon (US$1,358 bilhão), considerando os balanços de 2008 divulgados até agora, no país e nos EUA. À frente do Itaú Unibanco, só permaneceram Bank of America, Wells Fargo, JPMorgan e o Banco do Brasil (US$3,7 bilhões).
Setubal afirmou que algumas unidades do conglomerado já estão em fase mais adiantada de integração. É o caso da área de atacado, que a partir de abril deve ficar sob o comando único do Itaú BBA. No segmento de financiamento ao consumo, a Fininvest, marca do Unibanco, deve engolir a Taií, do Itaú.
Eduardo Roche, analista de bancos da gestora Modal Asset, disse que as provisões extraordinárias de R$3 bilhões do banco apenas no quarto trimestre chamam atenção pela dimensão - muito acima das feitas pelo Bradesco, de R$600 milhões, e pelo Banco do Brasil, de R$1,6 bilhão.
- Essas provisões não foram feitas em função da carteira, cuja taxa de inadimplência está dentro do normal. Mas têm um viés conservador que aponta que o banco já está olhando para o ano difícil que será 2009, e até uma antecipação de eventuais ajustes de provisões no próximos meses - disse Roche.
Cortes começaram pelo Itaú BBA
O presidente do Itaú Unibanco negou que pretenda demitir em massa, como parte do processo de integração dos dois bancos. Na sexta-feira passada, a equipe de analistas dos bancos na área de atacado foi alvo do primeiro corte. Em comunicado, o Itaú BBA confirmou "aproximadamente" cem demissões, entre banco de investimento e corretora. A nota não esclareceu se os cortes incluem o Unibanco.
- Não pensamos nisso (no anúncio de demissões em massa). Só com o "turn over" (saída espontânea) já será possível fazer um ajuste natural - afirmou Setubal.
Juntos, Itaú e Unibanco empregam cerca de 108 mil pessoas, para um "turn over" estimado em dez mil funcionários por ano.
Roche, da Modal Asset, diz que a avaliação do mercado é diferente.
- O processo de obtenção de sinergia passa por redução de pessoal. A sinalização do discurso tem sido de que não haverá cortes, mas é inevitável que isso ocorra ao longo do tempo. A dimensão desses cortes é difícil de estimar, mas que tem espaço para cortes isso é certo, seja pela sobreposição de funções das estruturas dos dois bancos, que cresceram muito com a expansão do crédito, ou pela situação desfavorável de mercado, que pode potencializar esse movimento -- disse o analista.