Título: Recessão vira alvo da CIA
Autor: Scofeild Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 26/02/2009, O Mundo, p. 29

Espiões farão relatórios diários a Obama sobre instabilidade em países devido à crise econômica

Os efeitos políticos da crise econômica mundial despertam uma preocupação tão grande nos Estados Unidos que a Casa Branca já se prepara para um cenário internacional cada vez mais conturbado. Ontem, o novo diretor da CIA (a principal agência secreta americana), Leon Panetta, afirmou que o presidente Barack Obama começou a receber relatórios diários econômicos redigidos por espiões e especialistas, que já indicam que um quarto dos países do planeta já enfrenta algum tipo de instabilidade política devido à crise.

Segundo Panetta, é fundamental para o governo americano saber os efeitos da recessão mundial, principalmente em países como a China e a Rússia, mas incluindo também a América Latina. Obama recebeu ontem seu primeiro "documento diário de inteligência econômica".

- É importante saber como (a crise) está afetando as políticas externas destes países - disse Panetta.

Segundo o diretor da CIA, 25% dos países já apresentam quadro de "instabilidade política de baixa intensidade", como mudanças no governo, devido à situação econômica. Ele citou três países sul-americanos - Argentina, Equador e Venezuela -, dizendo que a situação atual de grave crise econômica poderia provocar alguma futura instabilidade.

Ontem, o assunto do dia ainda foi a repercussão do discurso de Obama no Congresso, terça-feira à noite. De manhã, o vice-presidente Joe Biden compareceu aos três mais populares programas de variedades e notícias das redes abertas de TV para defender o pacote de estímulo econômico de US$787 bilhões e sua ampla agenda de reformas. Numa aparição que em tudo lembrou o anual Discurso sobre o Estado da União - mas que não recebeu este nome -, Obama afirmou que os EUA não manterão seu status de líder mundial se não começarem já a investir em energia renovável, na criação de um sistema de saúde acessível a todos e na ampliação do sistema de educação.

Tudo isso, garantiu o presidente no seu discurso - e Biden nas entrevistas na TV -, enquanto o Departamento do Tesouro dá os retoques finais no orçamento. Ontem, fontes da Casa Branca revelaram que apenas para a saúde pública Obama pretende reservar US$634 bilhões para reformar o sistema, num investimento que pode superar US$1 trilhão em dez anos.

A pergunta que todos se faziam ontem era: como acomodar tantas frentes de mudanças com um governo deficitário, com as despesas em alta em função da crise e com a forte oposição do Partido Republicano, que já está de olho nas eleições do ano que vem e vê com desconfiança o apoio a um plano que pode erguer não apenas os EUA, mas o democratas nas urnas.

- Achei o discurso muito bom, mas ainda estou fazendo as contas sobre o que o presidente vai fazer para viabilizar esta pauta enorme - disse o senador republicano John McCain.

Republicano diz que plano é irresponsável

A tarefa é difícil. No discurso de réplica dos republicanos ontem, o governador da Louisiana, Bobby Jindal - um possível candidato à Presidência no futuro - chamou os democratas de "irresponsáveis". Os projetos, disse ele, preveem gastos que não trazem qualquer mudança e só farão aumentar o déficit público. Os democratas reagiram acusando os republicanos de "fazerem política em meio a uma crise grave".

- Os republicanos estão agindo como aquele sujeito que elogia o zagueiro, mas critica suas jogadas - disse o senador democrata Charles Schumer. - O presidente e sua agenda são uma coisa só. Não se pode separar os dois.

Muitos republicanos reclamam da maneira atabalhoada e autoritária com que os democratas estão tratando os pacotes no Congresso. Os democratas criticaram a postura dos republicanos. Coube ao deputado democrata Jim Moran pregar a volta do suprapartidarismo:

- Temos sorte de ter este presidente, mas me pergunto até que ponto o Congresso merece esta liderança. Temos que agir juntos.

O mercado financeiro interpretou o discurso como amplo demais nas intenções e pouco detalhista nas medidas. Com as bolsas desabando ontem, investidores e analistas queriam saber de detalhes sobre a provável estatização de grandes bancos americanos, e como o Tesouro fará para cortar gastos e investir. Tudo deverá ser definido no orçamento, a ser divulgado hoje.

Ainda assim, o tom entusiasmado e convocatório do presidente seduziu os americanos. Pesquisa da HCD Research mostrou que, após o discurso, a aprovação do presidente subiu para 88% entre os democratas, 67% entre os independentes, e 33% entre os republicanos. Antes, era 80%, 51% e 22%, respectivamente.