Título: Setor financeiro volta a arrasar mercados
Autor: Scofield Jr., Gilberto; Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 03/03/2009, Economia, p. 21
Bolsa de NY recua ao nível de 97 com perda recorde da AIG.
Aseguradora American International Group (AIG), a maior dos Estados Unidos, recebeu ontem seu quarto aporte de recursos do governo, no valor de US$30 bilhões, depois de divulgar um prejuízo de US$61,7 bilhões no quarto trimestre de 2008. Foi a maior perda na história corporativa americana e equivale a US$465 mil por minuto. No ano passado, o prejuízo foi de quase US$100 bilhões. A notícia agravou o pessimismo dos investidores e fez o principal índice da Bolsa de Nova York, o Dow Jones, cair 4,24%, para menos de sete mil pontos, atingindo o menor nível desde abril de 1997.
O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que a medida foi necessária para evitar o colapso de uma empresa global. A AIG é a seguradora de mais de 100 mil empresas, prefeituras e fundos de pensão dos EUA, e suas operações estão relacionadas a mais de 100 milhões de americanos.
- O risco de não fazer nada era inaceitável - disse Gibbs.
A AIG foi salva da falência pelo governo em setembro. Até o fim de 2008, o Tesouro emprestou US$150 bilhões, obtendo participação de 80% na empresa. Agora a ajuda atinge US$180 bilhões, US$70 bilhões dos quais oriundos do fundo de resgate do sistema financeiro, de US$700 bilhões. A AIG não pagará dividendos e terá crédito a juros menores.
- O governo transferiu quase toda a dor para si mesmo, na presunção de que isso trará calma ao mercado - afirmou Phillip Phan, professor da Universidade Johns Hopkins, à Bloomberg. - O problema é que ainda não sabemos a extensão do risco da AIG.
A seguradora vai pagar o empréstimo com ações de suas subsidiárias internacionais American Life Insurance e American International Assurance. E dará ao governo direito de acesso ao fluxo de caixa das apólices de seguro, no total de US$8,5 bilhões.
Bovespa cai 5% e dólar avança 3%
Outra notícia ruim foi a queda de 62% no lucro anual do HSBC, para US$9,3 bilhões. O banco fará uma emissão de US$17,7 bilhões para reforçar seu capital, além de encerrar várias operações de empréstimos e demitir 6.100 nos EUA. Já no Brasil, o HSBC teve lucro líquido de R$1,354 bilhão em 2008, alta de 9% em relação a 2007. Mas o diretor-executivo de Finanças do HSBC, Álvaro Azevedo, ressaltou que a crise global afetou as provisões para perdas, que subiram 23%, para R$2,170 bilhões. O peso do Brasil no resultado em dólar passou de 3,6% em 2007 para 10%.
- O ano de 2008 foi muito bom, o melhor desde que o banco chegou ao país, em 1997. A carteira de crédito aumentou 27%, para R$42,410 bilhões - disse Azevedo.
O megainvestidor Warren Buffett afirmou, em carta enviada sábado aos acionistas de sua empresa, a Berkshire Hathaway, que a economia dos EUA está em ruínas.
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) seguiu os mercados internacionais. O Ibovespa, seu principal índice, recuou 5,09%, voltando aos 36.234 pontos, o menor patamar desde dezembro de 2008. No ano, ela acumula perdas de 3,50%, contra 22,94% do Dow Jones. O dólar refletiu a busca por segurança: subiu 3,03%, para R$2,442 - a maior cotação de 2009. Para o gerente de análises do Modal Asset, Eduardo Roche, a Bolsa brasileira finalmente sucumbiu às notícias ruins. Até o início de fevereiro, o Ibovespa subia 13,86%, quando o Dow recuava 5,65%.
HSBC e AIG afetaram o setor bancário: as ações ordinárias (ON, com direito a voto) do Banco do Brasil caíram 5,41%; as preferenciais (PN, sem direito a voto) do Bradesco, 3,76%; e as do Itaú Unibanco, 5,32%. A agência classificadora de risco Moody"s informou, em relatório, ter colocado o setor bancário brasileiro em perspectiva negativa. Mas a responsável pela área de Análise de Bancos na América Latina, Celina Vansetti, ressaltou que isso não representa ameaça de rebaixamento da nota dos bancos.
As ações PN da Vale recuaram 5,88%, depois que o Citibank previu, em relatório, queda de 30% no preço do minério de ferro este ano. As da Petrobras caíram 5,22%, com o recuo de 10% dos preços do petróleo.
A única alta da Bovespa foi a Natura, que fechou em alta de 0,14%, depois de subir 3,43%. Para o analista Leonel Pitta, da Lopes Filho & Associados, a empresa tende a beneficiar-se na crise, pois, para compensar a queda na renda familiar, as revendedoras se empenham mais.
Outra notícia que afetou o setor bancário global foi um escândalo com o Morgan Stanley. Segundo o "New York Times", o banco informou às autoridades americanas ter demitido um executivo na China após descobrir evidências de que ele teria subornado funcionários do governo chinês para fechar negócios. O executivo, Garth Peterson, não comentou o assunto.
(*) Correspondente, com Bruno Rosa e agências internacionais