Título: Gente humilde aos ouvidos da magistrada
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 06/03/2009, O País, p. 8

Lobista investigado bancou show com dupla caipira na vara de Ângela Catão.

BRASÍLIA. Relatório reservado da Polícia Federal informa que a organização chefiada pelo lobista Paulo Sobrinho de Sá da Cruz ofereceu várias vantagens à juíza Ângela Catão. Entre as benesses, a PF inclui até um show que a dupla caipira juvenil Marcos Henrique e Santiel fez com exclusividade para a juíza e os funcionários da 11ª Vara Federal de Belo Horizonte, em 6 de setembro de 2007. Marcos Henrique atuou no filme "2 filhos de Francisco", um dos grandes sucessos de bilheteria do cinema nacional.

Segundo a polícia, o show foi patrocinado por Sobrinho, que queria agradar à juíza. O lobista tinha interesse direto nas decisões de Ângela sobre desbloqueio de recursos do Fundo de Participação de Municípios de algumas prefeituras do interior de Minas, como foi apurado em interceptações telefônicas feitas com autorização judicial.

Num dos diálogos, Ângela acerta detalhes da apresentação da dupla com Francisco Sampaio de Araújo, gerente da agência da Caixa Econômica no prédio da Justiça Federal e um dos principais cúmplices de Sobrinho. Na conversa, gravada em 4 de setembro de 2007, Francisco pergunta se pode confirmar o show. A juíza responde que sim, e até pede que a dupla cante "Gente humilde", de Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Garoto.

"Cê pergunta se eles sabem cantar aquela música, é, que eles gostam muito de Minas, que é gente simples: "Ah, que sou gente simples, que vontade de chorar"" - sugere Ângela. Francisco diz que os dois conhecem a música e que, se quiser, a juíza pode escolher todo o repertório. Ela agradece: "Não. Só essa. O repertório deles é uma gracinha".

Logo depois, Francisco e Sobrinho comemoram o acerto. "Vamos tomar uma cerveja", diz um deles. Dois dias depois, a dupla faz o show na 11ª Vara e posa para fotos com a juíza e os funcionários.

O inquérito, encaminhado ao STJ, aponta várias decisões da juíza de interesse de Sobrinho. Pelas investigações, o lobista montou um escritório para comprar liminares favoráveis à liberação de recursos do FPM para prefeituras endividadas com o INSS. As decisões eram tomadas em tempo recorde, sem dar chance de o INSS recorrer. Sobrinho ficava com 20% do valor liberado. (Jailton de Carvalho).