Título: Visita ofuscada à Casa Branca
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 07/03/2009, O Mundo, p. 27

Agenda de encontro entre Lula e Obama perde espaço para disputa familiar por menino.

Em um país onde grande parte da mídia se pauta predominantemente por assuntos domésticos, celebridades e temas de tons sensacionalistas, a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos EUA - o primeiro encontro oficial de um chefe de Estado da América Latina com o presidente americano, Barack Obama - prevista para ocorrer nos próximos dias 14 (Washington), 15 e 16 (Nova York), virou refém, no noticiário americano, de um caso de custódia judicial: a disputa entre o americano David Goldman e o advogado João Paulo Lins e Silva pelo filho de David com a carioca Bruna Bianchi, morta no ano passado.

O presidente Lula afirmou ontem que vai pedir a Obama uma atenção especial, um "olhar diferenciado", para a América Latina.

- Vou estar com o presidente Obama no próximo sábado e pedir que os EUA tenham um olhar diferenciado para a América Latina. Nós somos um continente democrático, pacífico e, portanto, os EUA têm que olhar para a região com um olhar produtivo, desenvolvimentista, e não apenas pensando em narcotráfico ou em crime organizado. Isso nós não queremos. Nós queremos que os EUA sejam parceiros, para ajudar a construir uma América Latina mais forte.

Lula recebeu pedido do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para intermediar interesses do seu país em relação aos Estados Unidos. E também deve pleitear o fim do embargo comercial a Cuba, que vigora desde 1962.

Temas estratégicos estão na pauta

Mas, à medida que a viagem se aproxima, as atenções americanas estão voltadas ao caso da disputa da custódia do menino. O caso foi parar nas grandes redes de TV e jornais dos EUA - somente esta semana, a história foi tema especial nos programas Larry King Live e NBC Today Show, onde a secretária de Estado, Hillary Clinton, transformou a briga num assunto diplomático - além de ser assunto para incontáveis campanhas na internet, em sites que tratam o caso com detalhes, repletos de imagens de álbuns de família e com petições online. O resultado é que uma briga judicial nos tribunais brasileiros e americanos em torno da Convenção de Haia, que trata do assunto, se transformou num tema que hoje mobiliza e conta com a simpatia de milhões de americanos e praticamente toda a grande mídia do país, pressionando Obama e seu Departamento de Estado, eclipsando a viagem em si.

Sobrou para os veículos especializados discutir efetivamente a importante agenda de interesses entre os dois países, com temas como protecionismo, Rodada de Doha, barreiras ao etanol ou a ampliação do Conselho de Segurança da ONU.

- Esta é uma questão que está sendo explorada pela mídia americana, sobre a qual temos influência limitada, mas não mudou em absoluto a agenda de discussões entre os países prevista para o encontro - afirmou o subsecretário do Itamaraty para a comunidade brasileira no exterior, Oto Maia, o diplomata que responde diretamente pelo desenrolar no caso da criança brasileira disputada na Justiça.

Não é claro até que ponto um trabalho maior de comunicação entre o Itamaraty e os grandes grupos de mídia dos EUA poderia mudar a natureza excessivamente "show business" do jornalismo americano, ampliando o debate sobre a visita de Lula. De sua parte, o governo americano - e isso inclui tanto a Presidência quanto parte do Congresso - vê como importante o encontro. Em comunicado ontem, a Casa Branca anunciou a visita de Lula no sábado e afirmou que Obama discutirá com o presidente brasileiro "no que os dois países podem reforçar a cooperação para lidar com desafios globais e regionais":

"O presidente (Obama) fará consultas ao presidente Lula sobre medidas efetivas para reagir à crise financeira global durante o próximo encontro do G-20, garantindo a criação de uma agenda produtiva para a Cúpula das Américas, em abril. E criando formas de aprofundar a colaboração em um leque amplo de assuntos na relação bilateral", diz o comunicado.

Na prática, a América Latina concorre na agenda de Obama com a maior crise econômica vivida pelo país desde a década de 30. E o resultado é que, com tantas prioridades econômicas para resolver, o presidente americano ainda nem sequer escolheu os quadros mais importantes do seu governo para a região, incluindo um anunciado (mas ainda não criado) posto de "enviado especial às Américas". Esta estrutura, composta ainda pelo encarregado da região no Conselho de Segurança Nacional e pelo subsecretário para o Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, abriga nomes do governo de George W. Bush, assim como o posto do embaixador dos EUA no Brasil, ocupado hoje por Clifford Sobel.