Título: Mudança chega à sala de aula
Autor: Scofied Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 11/03/2009, O Mundo, p. 28
Reforma do ensino proposta por Obama inclui pagamento por performance de professores.
Em seu primeiro discurso sobre educação desde que tomou posse, o presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou ontem suas prioridades para o sistema educacional público, que incluem um polêmico sistema de remuneração dos professores de acordo com performance (os melhores ganharão mais e os piores serão demitidos), mais dinheiro para o ensino fundamental e superior, a ampliação do tempo que os alunos permanecem em sala de aula e a uniformização na avaliação das escolas públicas (hoje prerrogativa dos governos municipais e estaduais), entre outros pontos.
Ainda que algumas das medidas tenham sido incluídas no pacote de estímulo econômico - que triplica o orçamento do Departamento de Educação de US$46,2 bilhões, em 2009, para US$127,8 bilhões, em 2010 - o anúncio de Obama não se restringiu a deixar mais claros os seus planos para a educação. Num país onde mais da metade da população concluiu até o ensino médio e metade dos alunos de cursos universitários não chega a se formar, Obama pôs a educação no mesmo patamar dos investimentos econômicos em termos de geração de riqueza e capacidade de tirar o país da sua pior crise econômica.
- O progresso da economia e as conquistas educacionais sempre andaram de mãos dadas nos EUA - disse Obama, em discurso na Câmara de Comércio Hispânica dos EUA. - Apesar dos recursos gastos como em nenhum outro lugar no mundo, deixamos nossos conceitos cair, nossas escolas ruírem, a qualidade de nossos professores é insuficiente e outras nações nos ultrapassaram. O futuro pertence à nação que melhor educa seus cidadãos e temos tudo o que precisamos para ser esta nação.
Inspiração em países prósperos da Ásia
A escolha do local não foi ao acaso. Obama o escolheu para enfatizar o crescimento proporcional de hispânicos entrando no ensino público. Um quarto das crianças nos jardins de infância públicos é latina. Os estudantes hispânicos estão também "abandonando as escolas mais rapidamente do que quaisquer outros", destacou.
A ligação feita entre os esforços para melhorar a educação pública com a recuperação econômica pode facilitar o entendimento entre a Casa Branca e o Congresso, onde os gastos do governo com o pacote de estímulo enfrentam resistência dos republicanos. Mas os sindicatos de professores encaram com cautela as propostas, especialmente a sugestão de atar salários a desempenho, ideia bombardeada por sindicalistas.
"Nós apoiamos os apelos do presidente pela divisão de responsabilidade na educação entre o governo, diretores de escolas, pais, estudantes e professores", afirmou Randi Weingarten, presidente da Federação Americana de Professores, em nota. "Mas, a exemplo de várias políticas públicas, o diabo está nos detalhes, e é importante que a voz dos professores seja ouvida."
No discurso, Obama mostra que se inspirou na experiência educacional de países asiáticos que se enriqueceram muito nas últimas duas décadas - como Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura. Ele enfatizou a necessidade de as escolas experimentarem e arriscarem mais. Afirmou que as horas que os alunos ficam em sala de aula serão ampliadas, aumentando o ano letivo. Pediu que o sistema de avaliação pública de escolas seja uniformizado. São medidas adotadas em prósperas regiões da Ásia, cujos alunos hoje lideram as olimpíadas de matemática e ciências.
- Os desafios do novo século demandam mais tempo em sala de aula - disse o presidente, lembrando que muitos podem achar as mudanças radicais. - Mas, se puderam fazer isso na Coreia do Sul, podemos fazer isso nos EUA.
Uma das metas mais arrojadas é aumentar a fatia dos americanos com curso superior até 2020 e reduzir o número de estudantes que abandona os ensinos fundamental e médio. Isso esbarra numa realidade sombria: a quantidade enorme de universitários (e estudantes comuns) que deixam as faculdades (e colégios) está relacionada não apenas a custos da educação, como ao fato de que, em tempos de crise, é preciso trabalhar para sobreviver ou ajudar a família.
Por isso, o governo quer ampliar a oferta de ensino público gratuito, seja dando mais dinheiro ao setor, seja acabando com o limite estabelecido para os estados na abertura de escolas públicas, propostas que esbarram em políticos conservadores, que acham que a melhor maneira de estimular a educação de qualidade é dando incentivo para empresários abrirem boas escolas privadas.