Título: ONU admite fracasso no combate às drogas
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 12/03/2009, O Mundo, p. 30

Para diretor de agência das Nações Unidas sobre o tema, cartéis se tornaram mais ricos nos últimos dez anos

VIENA. Dez anos depois de ter imaginado "um mundo sem drogas", uma campanha da ONU contra a produção e o consumo de entorpecentes chegou a uma constatação: o fracasso. Ontem, ao abrir um encontro internacional em Viena para avaliar os progressos neste campo, o diretor-executivo da Agência da ONU sobre Drogas e Crime, Antonio Maria Costa, foi inequívoco: mesmo que o número de consumidores no mundo tenha se estabilizado nos últimos anos, o problema ganhou uma dimensão mais perversa, com cartéis tão ricos que hoje compram políticos e o poder na África Ocidental ou na América Central.

- Quando máfias podem comprar eleições, candidatos, partidos políticos, o poder, as consequências podem ser altamente desestabilizadoras -- alertou Costa.

Comércio ilegal chega a US$300 bilhões por ano

A África Ocidental, segundo ele, está sendo alvo de traficantes latino-americanos, que usam o continente africano para traficar cocaína para a Europa. A América Central também está sob ameaça dos cartéis, e o dinheiro da droga está penetrando em instituições financeiras, denunciou. O comércio ilegal de drogas é estimado em US$300 bilhões por ano.

A Comissão Europeia -- o braço executivo da União Europeia - fez a mesma constatação. Num relatório apresentado em Viena ontem, a Comissão diz que as políticas de repressão à droga na última década só tiveram um efeito: transferir os traficantes de um lugar para outro. Assim, o consumo de cocaína e heroína diminuiu no Ocidente, mas cresceu em outras regiões, como no Leste Europeu.

Constatação também do lado brasileiro, de que a guerra contra as drogas está longe de acabar. Num discurso ontem, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Armando Félix, defendeu mais esforços internacionais para prevenção e acesso à saúde pública para os dependentes de drogas e portadores de HIV. Para ele, um mundo sem drogas é uma utopia:

- Temos clareza que as metas de um "mundo sem drogas" se mostraram inatingíveis, com o visível agravamento das consequências não desejadas.

Estas consequências são, segundo ele, o aumento de pessoas presas, da violência associada ao mercado ilegal de drogas, dos homicídios entre jovens, além de ampliação do mercado ilegal e do surgimento de novas drogas sintéticas.

Já o presidente da Bolívia, Evo Morales, mascou folha de coca e pediu que a ONU retire a planta da lista de drogas ilícitas nos convênios internacionais, "pois não causa nenhum dano".

Hoje, países que ratificaram as três convenções internacionais de controle de drogas aprovarão um plano de ação e uma declaração em que reconhecem que cultivo, produção, distribuição e tráfico de drogas ilícitas estão "cada vez mais consolidadas na indústria do crime" gerando enormes quantidades de dinheiro. Na verdade, segundo um dos negociadores, a declaração não contém nada de novo em relação à de dez anos atrás. O que, para muitas ONGs, é um novo convite ao fracasso.

Mas, o negociador disse que há alguns pontos mais flexíveis, como por exemplo o incentivo ao desenvolvimento de estratégias - inclusive nos meios de comunicação - para diminuir a discriminação a consumidores de drogas, além da visão do tratamento como alternativa à prisão dos dependentes. Por trás do consenso da declaração de oito páginas, há uma divergência mais profunda e não resolvida. Enquanto países como EUA e Rússia defendem uma política mais tradicional, centrada na repressão e na criminalização das drogas, os europeus e alguns latinos pressionam para mais ênfase em políticas de tratamento dos dependentes.