Título: Crescimento do país antes da crise não era sustentável
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 15/03/2009, Economia, p. 30

Professor da FGV critica a política fiscal brasileira e "histeria" por um aumento de gastos públicos no mundo.

O economista Pedro Cavalcanti Ferreira, PhD pela Universidade da Pensilvânia e professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), se dedica a estudar os ciclos de crescimento econômico de longo prazo. E não vê, ainda, perspectivas para o fim da crise atual. Ferreira alerta: passada crise, o mundo não terá mais a exuberância das taxas de crescimento econômico elevadas dos últimos anos. Ele é cético em relação a um maior intervencionismo dos governos na economia como forma de aliviar a crise. E critica a política fiscal do governo brasileiro. "Apesar de todo o mise-en-scène, o investimento federal em infraestrutura representa só 1% do PIB".

Luciana Rodrigues

Há alguma perspectiva de alívio na crise mundial? Quando a economia global poderá começar a se recuperar?

PEDRO CAVALCANTI FERREIRA: Essa é a pergunta de vários bilhões de dólares. Não está muito claro ainda qual é a extensão e a duração dessa crise. Mas não há dúvidas de que se trata de uma crise muito profunda. Talvez seja uma crise única, a mais profunda desde a Grande Depressão.

Quando a crise passar, o mundo, e o Brasil, poderão voltar a crescer no patamar anterior? Ou houve uma quebra de paradigma?

FERREIRA: Quebra de paradigma foi o crescimento mundial nos últimos dez anos. O mundo vinha crescendo a taxas muito acima da média histórica, sobretudo um grupo limitado de países do Leste da Ásia, China, Índia, Malásia e outros, que cresciam acima de 8% ao ano, em média. E o mundo crescia a 4% ao ano, taxa muito acima do usual. Mesmo os países desenvolvidos estavam num ritmo bem superior ao 1,5% e 2% que é a média histórica dos últimos 150 anos. É muito difícil crescer mais do que isso sem gerar escassez de recursos e aumento de salários. Então, provavelmente, quando a crise acabar, não teremos mais essa exuberância. O futuro será mais parecido com o passado de longo prazo, e não com o passado recente.

Isso vale também para o Brasil, já que o país chegou atrasado nessa fase de exuberância?

FERREIRA: Se não fosse a crise, o Brasil teria crescido mais de 6% no ano passado, o que dá uma taxa superior a 5% per capita, que é quase igual às taxas do milagre econômico e também superior à nossa média histórica. Entre 1950 e 1980, o ritmo de crescimento econômico per capita do Brasil foi de 4,5%. Então, o crescimento do Brasil vinha registrando até o agravamento da crise não era sustentável. E, sim, o país, de fato, chegou atrasado na festa. Mas as condições não permitiam, no Brasil, uma redução de juros (para acelerar o crescimento), porque a inflação subia. Faltaram, no fim do governo Fernando Henrique e no governo Lula, várias reformas fiscais que não foram levadas adiante.

A crise atual poderá levar a uma mudança nas políticas econômicas tradicionais?

FERREIRA: Até pouco tempo atrás, os economistas não-keynesianos (ou seja, que não seguem as idéias do britânico John Maynard Keynes, que defendia, em momentos de crise de confiança, a atuação dos governos, por meio de investimentos públicos, para incentivar a demanda da economia) achavam que não se devia fazer políticas cíclicas (de estímulo da demanda). Mas, nos últimos cinco meses, esse consenso mudou. Entretanto, não há evidências, nos últimos 50 anos, desde o pós-guerra, de que políticas cíclicas tenham evitado grandes flutuações da economia. E há sempre o problema de o governo entrar atrasado e gastar muito. Mas, agora, diante dessa crise, economistas de peso, como o prêmio Nobel Paul Krugman, estão quase histéricos.

Então os governos não devem intervir?

FERREIRA: Não acho que os governos tenham que ficar parados. Mas não dá para entrar de cabeça, porque a política fiscal expansionista deixa de herança uma dívida pública. E o impacto provável (de recuperação da economia) pode ser limitado. Flutuações ocorrem na economia, e essa crise vai passar uma hora. Não é o fim do capitalismo.

Os recentes pacotes de estímulos à economia anunciados pelo presidente americano, Barack Obama, estão na direção correta?

FERREIRA: Em geral, sim. Mas existe um certo nervosismo excessivo. Os preços de imóveis nos Estados Unidos, por exemplo, aumentaram em até três vezes nos últimos dez anos. Então, para voltar a um preço de equilíbrio, terão que cair muito. Adianta, neste caso, o governo intervir? É uma questão dura, porque se o governo não intervém, continuará havendo problemas no sistema financeiro, o crédito continuará restrito. Entretanto, manter um ativo a um preço artificial é ilusório.

E os problemas dos bancos americanos?

FERREIRA: Essa é a principal questão. E, na minha opinião, é melhor fazer a estatização temporária do que dar dinheiro para os bancos sem qualquer tipo de controle. É preciso, sim, resolver o problema do crédito. Mas, se as empresas de automóveis dos Estados Unidos não estão solventes, tem que deixar quebrar. Se o governo não vai sustentar a AIG (seguradora que foi à bancarrota), por que vai sustentar a GM? Se por um lado é perigoso deixar todo mundo quebrar, por outro lado o governo não pode estar sujeito a lobbies.

E no Brasil? As políticas estão indo na direção correta?

FERREIRA: O Banco Central está correto, pode ter chegado um pouco atrasado o corte de juros, mas a direção é correta. Baixou as taxas, diminuiu o redesconto. A política fiscal está como sempre esteve: muito ruim. Houve alta na despesa corrente, reajuste do salário mínimo, aumento do funcionalismo. São gastos com pouco efeito na economia. O gasto com infraestrutura é muito mais saudável, tem impacto positivo na produtividade das firmas. E, apesar de todo o mise-en-scène, o investimento federal em infraestrutura representa só 1% do PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de todos os bens e serviços produzidos por um país ao longo de um ano). E o federal é o que importa. O governo, no fundo, não está fazendo política fiscal. Apesar do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), apesar de dizer que está investindo, quando se olha as estatísticas, é 1% do PIB. E, além disso, (o governo) está fazendo intervenções pontuais, cortando o IPI de um setor, dando mais seguro desemprego para outro setor, privilegiando certos grupos econômicos. Isso só distorce a atividade econômica. Seria muito mais eficiente reduzir o IPI da economia como um todo.

É possível que essa crise represente um retrocesso na globalização?

FERREIRA: A Grande Depressão, na década de 30, levou a um aumento do protecionismo, que teve início no Congresso americano e, depois, veio em forma de retaliação dos outros países. Existe sim, esse perigo, nos Estados Unidos e na Europa, sobretudo. Se isso ocorrer, será lamentável. Mas eu sou otimista. Os avanços recentes foram tão grandes que acho difícil termos um retrocesso. Hoje há muito mais mecanismos, muito mais instituições regulando os mercados. Temos uma Organização Mundial do Comércio (OMC). O custo político de romper esses contratos é muito grande, até porque existem mecanismos de retaliação automática (em caso de desrespeito às normas da OMC, por exemplo). Então, quando a crise passar, provavelmente voltaremos ao que era antes.