Título: Aí, então, é hora de fechar o Congresso
Autor: Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 17/03/2009, O País, p. 3

Primeiro-secretário faz ironia com a falta de transparência nas cotas de passagens.

BRASÍLIA O uso da cota de passagens aéreas da senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), líder do governo no Congresso, para levar um grupo de amigos e assessores de São Luís para Brasília, no fim de semana de 6 a 8 de março, pôs a cúpula do Senado novamente em xeque. A denúncia, feita pelo site Congresso em Foco, foi acrescida ontem de detalhes - como o uso da residência oficial da presidência do Senado para abrigar parte do grupo. Segundo as regras da Casa, não há ilegalidade ou irregularidade no uso das passagens por terceiros. O parlamentar só não pode vendê-las. Os senadores têm direito a cinco passagens de ida e volta por mês. Membros da Mesa e líderes, como Roseana, têm direito a sete.

O primeiro-secretário, Heráclito Fortes (DEM-PI), chegou a dizer, com ironia, que se for dar publicidade ao pagamento de passagens aéreas, muita gente será comprometida, inclusive jornalistas, e seria melhor, então, fechar o Congresso. Ontem, o presidente José Sarney (PMDB-AP) conversou com Heráclito e disse desconhecer o fato. Mais tarde, em entrevista, Heráclito disse que há uma "paranoia" e uma campanha orquestrada contra o Senado por parte de desafetos dos Sarney, enquanto há silêncio em relação a questões polêmicas do Executivo, como ONGs e fundos de pensão. Perguntado se não era melhor rever as cotas de passagens, dando mais transparência, respondeu, em tom de ironia:

- Aí, então, está na hora de fechar o Congresso. Se forem atrás de pagamento de passagem, não escapa nem jornalista. Vai ser um constrangimento. Se vier à tona, vai comprometer muita gente.

Instado a listar jornalistas que seriam beneficiados, disse que "há estados pobres, onde a doação de passagens poderia acontecer". O Senado gastou, ano passado, R$19.977.949,05 com passagens - R$16.999.275,12 em território nacional e R$2.978.673,93 para o exterior. Os dados são do Siafi, sistema de informações do governo. O contrato do Senado com a agência Sphaera Turismo, por 12 meses, é de R$22,2 milhões.

Ao longo do dia, Roseana e seus assessores entraram em contradição. Primeiro, ela disse que pagara a passagem de dois assessores, enquanto sua assessoria informava que seriam seis, e que quatro deles ficaram hospedados na residência oficial do Senado, de sexta-feira a domingo, na ausência de Sarney, que continua morando em sua casa do Lago Sul. No domingo participaram de um almoço, com Sarney. No fim do dia, a versão foi de que não se sabia quantas pessoas teriam viajado e que os nomes não seriam divulgados. Roseana disse que a denúncia original, do "Jornal Pequeno", de oposição aos Sarney no Maranhão, era "loucura" e negou que o grupo tenha sido levado para jogar cartas:

- Lá no Maranhão, de vez em quando eu jogo baralho com um grupo de amigos. Como não estou podendo me deslocar para lá, estão dizendo que eu trouxe a mesa de jogo para Brasília. Isso é uma loucura! O site publicou a lista das pessoas com quem eu jogo, mas a lista (de quem teria usado passagens) está errada.

Segundo a lista fornecida pela Sphaera Turismo ao site Congresso em Foco, teriam tido passagens pagas com a cota de Roseana - ida e volta - Heitor Heluy, assessor do TRT 16ª Região/MA; Sebastião Murad, ex-deputado estadual, dono de uma rede de postos de combustível em São Luís; Eduardo Haickel, dono do posto de combustível Tiger, em São Luís; Henry Duailibe, dono da concessionária Duvel, da Ford, em São Luís; Rosa Lago, mulher do empresário Eduardo Lago, que tem negócios com Fernando Sarney, irmão de Roseana; Teresa Sarney, mulher de Fernando Sarney; e Adalberto Furtado, conhecido como Bil, dono da Construtora Estela, de São Luís. Roseana nega essa lista.

Sobre a hospedagem de parte do grupo na residência oficial do Senado, a assessoria do gabinete de Sarney explicou que não há restrição a isso e que o presidente pode receber e hospedar amigos e pessoas da relação dele e de sua família.

- Só uns dois dormiram lá, os parentes! É a residência de meu pai - disse Roseana.

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