Título: Lula, Obama e a AL
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Fonte: Correio Braziliense, 14/03/2009, Opinião, p. 26

Está carregada de simbolismo a reunião de hoje, nos Estados Unidos, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama. É esperada uma empatia natural entre o retirante nordestino e o negro que ascenderam ao poder com vitórias inéditas sobre o preconceito em seus países. Apesar das boas relações pessoais ¿ muito embora o distanciamento político e ideológico ¿ com o republicano George W. Bush, o brasileiro manifestou simpatia pelo democrata ainda durante a disputa presidencial, quando ele ainda não passava de candidato. Agora se torna o primeiro líder latino-americano, segundo chefe estrangeiro a ser recebido pelo novo governante na Casa Branca. E chega credenciado para falar pelo subcontinente, inclusive com mandado do colega venezuelano, Hugo Chávez, para abrir espaço à aproximação entre Caracas e Washington.

Por mais que a crise econômica mundial tome conta da pauta, a maior expectativa está justamente na forma como a potência do norte tratará os vizinhos na atual gestão. Até aqui, o quadro é preocupante. Em pouco mais de dois meses de mandato, nem sequer está composta a equipe responsável pela América Latina. Mais: o combate à recessão tem ignorado interesses dos países em desenvolvimento, com farto apelo a medidas protecionistas. As diferenças sobre a mesa certamente são maiores que os pontos em comum.

Não por acaso, o presidente Lula, horas antes de embarcar, em Brasília, antecipou que pedirá a Obama uma condução política, não técnica, na transposição da difícil conjuntura. Também fez um alerta: ¿Não é hora de tagarelar, mas de agir¿. De fato. Não basta reconhecer a liderança regional do Brasil, uma realidade inescapável. A emergência arromba a porta e as agendas são prementes. Se o convite do norte-americano para uma ação conjunta é para valer, resultados concretos precisam ganhar visibilidade. Já no próximo mês, quando o G-20 se reunirá em Londres, e Trinidad e Tobago sediará a Cúpula das Américas, haverá oportunidades para afinar e marcar posições.

Os Estados Unidos se empenham na redução da dependência do petróleo e o Brasil lidera a tecnologia dos biocombustíveis. Visto assim, a solução parece simples, bastando juntar a fome à vontade de comer. Mas o etanol brasileiro, à base de cana-de-açúcar, enfrenta barreiras ¿ das quais Washington não sinaliza pretender abrir mão ¿ para concorrer com o norte-americano, de milho. Outro nó a ser desatado é a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), destinada a liberalizar as relações comerciais no planeta. Nesse ponto se encaixa com precisão a recomendação para que se sobreponha a política à técnica. Detalhes impedem acordos, num momento em que o crédito escasso dificulta sobremaneira os negócios entre países, e deixar fluírem os mercados é condição sine qua non para superar a crise.

Obama chegou ao poder com uma campanha sustentada na defesa do multilateralismo. Ao suceder Bush, arrefeceu sentimentos anti-EUA exacerbados em boa parte do mundo, inclusive na América Latina. Agora, quanto de disposição tem para ir além e estreitar os laços com a região é questão a ser mensurada a partir de hoje.