Título: Euforia por US$1 tri
Autor: Scofield Jr., Gilberto; Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 24/03/2009, Economia, p. 19

Programa para resgatar bancos nos EUA faz bolsas dispararem, mas acadêmicos criticam.

O detalhamento, pelo Tesouro dos Estados Unidos, do plano para destravar o sistema de crédito americano provocou uma onda de euforia no mercado financeiro mundial ontem. Nos EUA, o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, saltou 6,84%, maior alta desde 28 de outubro. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) subiu 5,89%, para 42.438 pontos, maior nível desde 6 de janeiro, e, no ano, acumula alta de 13,02%. Apesar da boa receptividade de investidores à notícia de que o governo americano vai financiar a compra de até US$1 trilhão em ativos podres de bancos (créditos de difícil recebimento ou papéis lastreados em empréstimos com poucas chances de pagamento), acadêmicos como o Nobel de Economia Paul Krugman e James Galbraith - um dos conselheiros do presidente americano, Barack Obama - questionaram sua eficiência.

O Plano de Investimento Público-Privado prevê que o governo americano use entre US$75 bilhões e US$100 bilhões como contrapartida para que fundos privados, seguradoras e fundos de pensão comprem os papéis podres. E os investidores terão financiamentos subsidiados e garantias da FDIC, agência que garante depósitos.

- A boa notícia é que temos mais um novo elemento crítico para nossa recuperação - afirmou Obama.

Ainda que a estatização dos bancos esteja descartada, o programa deixa nas mãos do governo boa parte do risco destas operações, no caso de os papéis perderem valor. O governo promete injetar um dólar para cada dólar gasto pelos fundos privados. E a FDIC pode injetar até seis vezes esses valores por meio de financiamentos.

- Isso vai ajudar os bancos a limpar os balanços. Não há como resolver uma crise sem o governo assumir riscos - disse o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner.

A bolsa eletrônica Nasdaq subiu 6,76% e o S&P, 7,08%. Na Europa, as principais praças fecharem no azul. Londres subiu 2,86%, Paris avançou 2,181% e Frankfurt teve alta de 2,65%. Na Ásia, Tóquio e Hong Kong superaram os 3% de alta.

- O plano é mais incisivo para tentar resolver os problemas dos ativos dos bancos. O governo pretende deixar o sistema mais saudável, para forçar a retomada do crédito - diz Eduardo Roche, gerente de análises do Modal Asset.

Também contribuiu para a alegria do mercado dos EUA a alta de 5,1% na venda de imóveis usados em fevereiro. Outro motivo foi a decisão do governo de deixar nas mãos do mercado a avaliação dos ativos podres. Estes serão ofertados em leilão e quem fizer a proposta mais próxima do preço original os leva. Espera-se que o processo de venda comece em maio.

Galbraith: "presente para bancos"

Para o economista James Galbraith, o plano é "extremamente perigoso" e ineficiente, pois o Tesouro avalia mal as razões da crise:

- Na visão do governo a economia está em crise porque os bancos não estão emprestando. Na verdade, ela está em crise porque os americanos se endividaram muito. E os bancos não querem emprestar para quem não vai lhes pagar. O plano é mais um presente para os bancos e para Wall Street.

Uma das exigências dos prováveis compradores dos títulos podres é que não haja sobretaxação de bônus, como o Congresso dos EUA quer fazer com a AIG. Ontem, o procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, disse que nove dos dez executivos do grupo AIG que receberam os maiores valores, além de 15 funcionários da unidade da seguradora de produtos financeiros, vão devolver o dinheiro, totalizando US$30 milhões. Espera-se que US$80 milhões sejam recuperados. O total pago foi de ao menos US$165 milhões. E a AIG informou que executivos da unidade de produtos financeiros renunciaram. Não foram revelados detalhes sobre as renúncias.

Na Bovespa, o destaque foram ações de construtoras, que aguardam para hoje o anúncio do pacote brasileiro de estímulo. As ações ON (ordinárias, com direito a voto) da Gafisa subiram 16,1% e as da Cyrela, 11,9%. Já o dólar caiu 0,80%, para R$2,246.

Ontem, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado de ações no Brasil, reafirmou que a Telco, acionista da Telecom Itália, terá que fazer uma Oferta Pública Ações ordinárias para os minoritários da TIM Participações. E o Itaú Unibanco tornou-se majoritário na Redecard, após compra dos papéis do Citigroup, o que ampliou a fatia do banco para pouco mais de 50%.

(*) Correspondente, com agências internacionais

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