Título: Cesar Maia nega envolvimento em esquema de cobrança de propina
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 29/03/2009, O País, p. 4

Ex-secretário de Fazenda de Brizola diz não acreditar nas acusações do Cenimar.

BRASÍLIA. Secretário de Fazenda no primeiro governo Brizola, o ex-prefeito Cesar Maia pôs em dúvida as acusações do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) sobre suposto esquema de cobrança de propina de empresas de ônibus na gestão pedetista.

Apontado como gestor de uma caixinha que seria alimentada por contribuições do setor, Cesar negou envolvimento no caso e considerou a acusação dos arapongas uma ¿hipótese difícil de ser verdadeira¿, devido aos embates que o ex-governador teve com donos de empresas de ônibus.

¿Nunca fui chamado para tarefas políticas no primeiro governo Brizola. Era tratado como tecnocrata. Sequer era da executiva do PDT. Só passei a ser chamado para política depois que fui eleito deputado, em 1986¿, disse o ex-prefeito, por e-mail. ¿Acho aquela hipótese (o caixa dois) difícil de ser verdadeira, pois Brizola fez a intervenção e encampou todas as empresas de ônibus. Uma contradição nos fatos¿.

Segundo Cesar, Brizola sabia ser espionado o tempo todo pelos militares. Ele disse que o governador brincava com o fato em reuniões com os colaboradores no seu apartamento, em Copacabana. ¿Brizola nunca teve dúvidas. Abria as reuniões na mesa redonda da casa dele dizendo assim: `Boa tarde a todos e um abraço especial a você que está ao lado, no Hotel Othon, fazendo escuta¿¿, contou Cesar, que rompeu politicamente com o pedetista antes de se candidatar pela primeira vez à prefeitura, em 1992, pelo PMDB.

Cesar disse que a ação de arapongas contra o governo era previsível num momento de transição da ditadura para a democracia: ¿Mas a sensação do Brizola é que foi sendo reduzida à medida que o governo caminhava para a parte final¿.

O relatório do Centro de Informações da Marinha sobre a suposta caixinha foi datilografado em 1984 e teve cópias enviadas aos serviços secretos do Exército e da Aeronáutica e ao SNI.

Não há registros de que o caso tenha sido encaminhado às instâncias legais de investigação.

A encampação das empresas de ônibus foi anunciado em dezembro do mesmo ano, dois meses após uma greve de rodoviários paralisar o transporte público no estado. Foram estatizadas 16 companhias, que controlavam uma frota de 1.817 coletivos.

No mesmo dia, o governo depositou em juízo indenização de Cr$ 215 bilhões (cerca de R$ 470 milhões, atualizados pelo INPC). Os empresários resistiram à medida, mas não conseguiram derrubá-la na Justiça. Ao justificar sua decisão, Brizola os acusou de fazer caixa dois, deixar parte da frota nas garagens e financiar mordomias com o valor cobrado aos passageiros.

Para Brizola Neto, documentos suspeitos e sem credibilidade Principal herdeiro político do ex-governador Leonel Brizola, o líder do PDT na Câmara, Brizola Neto (RJ), reagiu com surpresa ao ser informado de que a ditadura investigou seu avô mesmo depois da Lei da Anistia. E rebateu as suspeitas levantadas nos documentos do extinto SNI.

¿Sabia que ele fora perseguido no exílio, mas não no governo.

Fico espantado. Ao mesmo tempo, não deixa de ser previsível, porque a preocupação dos militares era que os políticos cassados pelo golpe de 1964 voltassem ao poder ¿ disse.

O deputado classificou como suspeitos e sem credibilidade os documentos em que arapongas apontaram supostos esquemas de corrupção no primeiro mandato de Brizola. Disse que os informes não devem ser considerados relevantes como denúncias, e sim como registro histórico de como atuavam os órgãos de espionagem da ditadura.

¿ Esses relatórios são fruto de um intenso processo de perseguição.

Nenhum homem público no Brasil foi tão investigado quanto Brizola, e nunca conseguiram macular sua imagem em vida. Acho suspeito que esses documentos não tenham sido usados na época e só venham à tona agora ¿ afirmou.

Para Brizola Neto, o fato de os arquivos do SNI guardarem dossiês até sobre a vida privada de Brizola mostra que os arapongas atuavam sem limite ético ou legal. Ele pretende analisar os papéis nos próximos dias.