Título: Protecionismo em questão
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 15/03/2009, Mundo, p. 18
Todo o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para combater o protecionismo é válido mas insuficiente para evitar que os países estabeleçam medidas em benefício da indústria nacional. Segundo o professor da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Piscitelli, o aumento das barreiras protecionistas no mundo é bastante comum em tempos de crise. ¿Os governantes acabam cedendo às pressões do setor produtivo e estabelecendo barreiras. Nesse cenário é natural uma queda no comércio internacional¿, afirmou o professor.
Essa, aliás, é uma preocupação de Lula, que deseja intensificar a venda de produtos nacionais para os Estados Unidos, ainda considerada tímida. Bem à vontade, o presidente brasileiro concordou com o colega norte-americano, Barack Obama, que é difícil avançar em uma agenda comercial como as negociações da Rodada de Doha num cenário de crise econômica. Por outro lado, ressaltou que a finalização de Doha poderia ser um componente de alívio para os países mais pobres nesse momento adverso.
Assim como em outras ocasiões, Lula não perdeu a oportunidade de dizer que o Brasil deve ser um dos primeiros a sair da crise. ¿Eu digo todo dia que o Brasil foi o último país a entrar na crise e tem a possibilidade de ser o primeiro a sair dela. Não temos problemas no sistema financeiro brasileiro. Nós poderemos ter problemas nas exportações e no crédito. E se nós não fizermos voltar a fluir o crédito aí sim a crise pode se aprofundar¿, destacou Lula.
Barreiras Para o professor da UnB, não serão críticas de Lula que farão com que o governo norte-americano retire barreiras, como a existente na comercialização ao biocombustível. ¿Faz parte da retórica de dar satisfações ao mercado brasileiro. Mas não é isso que vai derrubar a barreira protecionista¿, destacou Piscitelli. Ele disse que as palavras de Lula em nada vão ajudar na recuperação da confiança do investidor para possibilitar o destravamento dos empréstimos no mercado internacional. ¿A retomada do crédito vai demorar. O Brasil, pelo menos, está em situação melhor do que muitos países, pois possui um alto nível de reservas internacionais para financiar, por exemplo, as empresas exportadoras¿, destacou. ¿O discurso de Lula faz parte de um programa diplomático, de marketing e retórica para o consumo interno¿, acrescentou.
O professor da PUC-SP e integrante consultivo da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda, considerou as ponderações de Lula corretas no sentido de criar espaço para os produtos brasileiros. ¿Nos períodos de crise, sempre há aumento do protecionismo. Isso é a história. Mas não quer dizer que os países devem aceitar o fato pacificamente.¿ Na avaliação de Lacerda, a regulação do sistema financeiro internacional ¿ um dos principais temas da reunião do G-20 ¿ será fundamental para estabelecer a ordem e a confiança.