Título: Tráfico prostitui menores
Autor: Werneck, Antônio
Fonte: O Globo, 05/04/2009, Rio, p. 14
Adolescentes são explorados sexualmente em nove bairros das zonas Sul e Norte.
Depois de controlar a venda de armas e drogas nas ruas e nos presídios, traficantes do Rio decidiram expandir seus negócios: passaram a ganhar dinheiro com a prostituição de menores no asfalto. Pagando propina a grupos de policiais associados a uma rede de aliciadores, os bandidos já dominam territórios de exploração sexual em nove bairros das zonas Sul e Norte. Na relação de pontos de prostituição estão algumas das mais movimentadas vias da cidade, como a Avenida Atlântica, em Copacabana, cartão-postal do país no exterior.
Meninas e meninos explorados sexualmente foram ouvidos pelo GLOBO e revelaram que são obrigados a pagar até R$50 por dia a aliciadores. Além disso, cumprem uma jornada na qual fazem até seis programas por noite em hotéis, no interior de carros e até mesmo em calçadas sem iluminação pública. Tudo controlado por traficantes de drogas de uma favela do Rio, que chegaram a armar um esquema de segurança armada para controlar os menores - alguns dos entrevistados têm apenas 15 anos.
Os menores também contaram que são entregues pelos aliciadores a estrangeiros hospedados em um hotel de luxo da orla da Zona Sul, supostamente com a cumplicidade de funcionários que não exigem documentos de identidade. Nesses casos, o programa completo, pelo período de uma hora, chega a render até R$250. O dinheiro não fica com os jovens, mas com os responsáveis pelo esquema de prostituição.
- Fui levada para um estúdio onde fizeram fotos minhas e de outras meninas nuas. Depois, eu e quatro amigas ficamos num restaurante esperando os clientes. Eles nos escolhem numa espécie de cardápio, que tem vários fotos. A gente vai para um hotel de luxo na Zona Sul. Ninguém pede documento na entrada - disse X., de 15 anos, explorada sexualmente há quase oito meses.
Crianças levadas para a Espanha
Nas últimas duas semanas, repórteres do GLOBO descobriram a existência de aliciadores em vários bairros da cidade. Na Zona Sul, restaurantes e bares são usados como bases de operações dessa rede, espalhada por quase toda a cidade. Há menores que são negociadas dentro de bordéis. Foi identificado ainda um grupo de homens e mulheres especialistas na "venda" de menores pobres, que vivem nas ruas. Meninas e meninos são levados, com documentos falsos, para bordéis na Espanha, onde acabam recebendo tratamento de escravos.
O esquema de prostituição de menores no Rio é investigado por Maria Aparecida Mallet, titular da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV). Há três inquéritos abertos que tratam do assunto. Na semana passada, informados por repórteres do GLOBO, agentes da unidade especializada da Polícia Civil percorreram alguns pontos de exploração de menores. Em São Cristóvão, no entorno da Quinta da Boa Vista, policiais recolheram seis pessoas que se prostituíam - três eram adolescentes. Eles confirmaram a exploração aos agentes em depoimentos que foram acompanhados por psicólogos e assistentes sociais da Fundação para a Infância e Adolescência (FIA). O caso foi levado ao Ministério Público estadual, que passou a acompanhar as investigações.
- São relatos impressionantes. Alguns dos nomes indicados pelas crianças já eram investigados. Fico arrepiada só de lembrar. São monstros que aliciam, exploram e se beneficiam desses menores. Estou pedindo à Justiça a prisão de todos os citados. Vou indiciar também os responsáveis pelos hotéis e restaurantes envolvidos nessa rede de prostituição - disse a delegada Maria Aparecida Mallet.
Os adolescentes contaram que pelo menos 12 menores são mantidos em cárcere privado numa casa dentro de uma favela, vigiada por traficantes armados. O grupo só deixa o endereço à noite, numa van, para seguir até os pontos de prostituição. O dono do imóvel seria um travesti que controla o esquema em parceria com os traficantes da comunidade. De acordo com as investigações, ele tem dois carros importados. Segundo relatos, alguns menores teriam desaparecido depois de tentarem fugir da casa e serem capturados pelos traficantes. Foram identificados pontos de prostituição infantil em Copacabana e também no Centro, no Flamengo, na Lapa, na Praça da Bandeira, em São Cristóvão, no Santo Cristo, em Madureira e no Méier.
Em Copacabana, dois grupos, associados a traficantes, dividem o controle dos pontos na Avenida Atlântica. Investigações apontam que os exploradores de menores são donos de vários apartamentos na Zona Sul, nos quais acontecem os programas.
- Para você trabalhar na rua, precisa morar num desses apartamentos e pagar uma diária de R$50. Aqui, cada trecho da calçada tem um dono - afirmou uma jovem.
Nas proximidades da Rodoviária Novo Rio e na Avenida Francisco Bicalho, um dos aliciadores de menores seria um policial reformado, dono de pelo menos três táxis, todos piratas. Depoimentos dados à DCAV revelaram que, nos arredores do Campo de São Cristóvão e da Quinta da Boa Vista, dois casais exploram a prostituição infantil. Um dos envolvidos também seria policial. A prisão do grupo já foi pedida à Justiça.