Título: Evo Morales não come para se reeleger
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Fonte: O Globo, 10/04/2009, O Mundo, p. 23

Presidente boliviano faz greve de fome para aprovar lei eleitoral. Medida é votada de surpresa.

LA PAZ. O presidente da Bolívia, Evo Morales, iniciou ontem uma greve de fome para pressionar o Congresso a aprovar uma nova lei eleitoral, que permitirá a realização de eleições gerais em 6 de dezembro. À noite, o partido do presidente aprovou o projeto de lei em primeira instância, numa sessão confusa e com parte da oposição fora.

- Diante da negligência de um grupo de parlamentares, fomos obrigados a realizar essa medida para defender o voto do povo - disse o presidente, que durante o jejum masca folhas de coca para aliviar a sensação de fome.

A nova Constituição, aprovada no referendo de janeiro e promulgada em fevereiro, prevê que o Congresso aprove um novo regime eleitoral transitório num prazo que venceu quarta-feira. A lei eleitoral abriu uma nova frente de confronto entre governistas e opositores, com as principais divergências se centrando no padrão eleitoral, na reserva de 14 cadeiras para indígenas e no sistema de voto para bolivianos no exterior.

A greve de fome aumentou a tensão política no país. O ex-presidente e líder do partido Poder Democrático e Social (Podemos), Jorge Quiroga, chamou a greve de "dieta presidencial para encobrir a fraude". Para a oposição, da forma como foi apresentado, o projeto de lei beneficia a reeleição de Morales.

- O desespero do governo o está levando a cometer um erro após o outro, procurando montar uma fraude maciça para continuar no governo e esconder a corrupção. Isso é a única coisa que interessa a Morales - afirmou Quiroga.

Segundo presidente do país a lançar mão de jejum

Já o presidente da Assembleia Geral da ONU, o nicaraguense Miguel D"Escoto Brockmann, manifestou seu apoio ao presidente boliviano, "para que o Congresso aprove a lei que outorga maior representatividade aos setores mais desfavorecidos do país". O deputado brasileiro Dr. Rosinha, que é vice-presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul), considerou que o ato de Morales é uma resposta à "atitude golpista" da oposição, contrária ao novo Código Eleitoral. Ele disse que pretendia propor ao Parlasul uma discussão sobre a crise política boliviana.

À noite, o vice-presidente do país e presidente do Congresso, Álvaro García Linera, convocou repentinamente, após mais de 25 horas de debate, a votação. A medida foi aprovada em primeira instância, que ainda não é definitiva, depois que muitos opositores deixaram o Plenário. Quando retornaram, vários opositores criticaram a estratégia e insultaram García Linera.

Morales não é o primeiro presidente boliviano a lançar mão da greve de fome. Por duas vezes, o presidente Hernán Siles Zuazo recorreu a isso. Em 1956, ele entrou em greve de fome para evitar a violência, numa época de hiperinflação e forte confronto com a Central Operária Boliviana (COB). Quase 30 anos depois, em 1984, em novo mandato, ele jejuou por quatro dias para protestar contra opositores e a COB que, segundo ele, não o deixavam governar.