Título: Família faz parte do mandato
Autor: Braga, Isabel; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 24/04/2009, O País, p. 3

Câmara recua, decide votar medidas e deve liberar uso de passagens por parentes.

BRASÍLIA As medidas de moralização do uso da cota de passagens aéreas por deputados serão submetidas ao plenário da Câmara semana que vem. A forte pressão para flexibilizá-las poderá trazer de volta a permissão do uso do benefício pelos parentes dos parlamentares, para voos entre Brasília e seus estados de origem. Pela decisão de anteontem da Mesa Diretora, só deputados e assessores poderiam viajar por conta da Câmara. Pressionado pelos colegas, porém, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), transformou o ato da Mesa em projeto de resolução, permitindo que o texto seja emendado em votação no plenário.

¿ O Sarney (presidente do Senado) fez por projeto de resolução; se não fizermos, fica ruim. É a melhor saída para dar legitimidade ¿ justificou Temer, ontem.

A ideia do projeto teve o aval dos demais integrantes da Mesa e será levado aos líderes terça-feira. Temer admite as mudanças: ¿ Da minha parte, não vai mudar, mas se o plenário quiser... ¿ disse, ao ser perguntado se os parentes dos deputados podem voltar a ser beneficiados.

No plenário e pelos corredores, deputados criticavam as medidas restritivas. Alguns faziam piadas: ¿ Daqui a pouco vão querer que eu ande de jegue, more em casa de palafita e mande mensagem por pombocorreio ¿ ironizou, da tribuna, o deputado Domingos Dutra (PT-MA).

O deputado Silvio Costa (PMNPE), o primeiro a protestar da tribuna, anteontem, alegando que as medidas iam acabar com seu casamento ¿ porque sua mulher não poderia mais ir a Brasília com verba pública ¿ foi taxativo ontem: ¿ A minha questão é a seguinte: é que a família faz parte, na minha opinião, do meu mandato.

Seu colega Marcondes Gadelha (PSB-PB) completou, dizendo que a proibição de uso pela mulher tinha o objetivo ¿de transformar os parlamentares em celibatários¿.

Deputado-galã diz que foi anistiado

Ciro Nogueira (PP-PI) criticou Temer por rever decisões já anunciadas: ¿ Ele está parecendo biruta de aeroporto.

Vai e volta em suas decisões.

Ciente das reações, principalmente no baixo clero, Temer tem afirmado que atos passados não serão punidos.

Para evitar uma rebelião maior, ele decidiu com a Mesa manter o sistema de créditos, sem implantar a proposta mais radical de dar o bilhete aéreo só para o deslocamento ao estado de origem.

Outra estratégia para aprovar as medidas sem muitas concessões será votar a emenda ao projeto original, nominalmente. Assim, o voto de cada parlamentar será exposto.

Ontem, sentindo-se blindado pela anistia anunciada por Temer, Fábio Faria (PMN-RN) deu por encerrada a polêmica envolvendo seu nome. Conhecido na Câmara como deputado-galã, e le usou sua cota para pagar passagens da ex-namorada Adriane Galisteu e de artistas contratados para prestigiar seu camarote no carnaval fora de época em Natal. Com a presença deles, Faria cobrou ingressos de até R$ 700.

¿ Qualquer caso de passagem, quando não tinha regras claras, é passado, e meu caso se enquadra nisso ¿ disse o deputado.

A assessoria da Câmara informou que Temer ainda não analisou as explicações enviadas por Faria e que não há decisão sobre o caso.

O projeto entrará na pauta em regime de urgência. Para apresentação de emendas, é preciso o aval de 110 deputados ou de um líder que represente esse número. Para a votação nominal, é preciso aprovar um requerimento prévio, que deve ter o voto da maioria dos presentes, com o mínimo de 257 deputados em plenário.