Título: Israel ataca no Sudão
Autor: Vaz, Viviane
Fonte: Correio Braziliense, 27/03/2009, Mundo, p. 25

O primeiro-ministro demissionário de Israel, Ehud Olmert, aproveitou uma notícia da rede americana de televisão CBS para mandar um duro recado ao Irã: o Estado judaico está pronto e disposto para atacar ¿a infra-estrutura do terror¿ onde quer que seja. A emissora revelou que no mês passado aviões israelenses bombardearam no Sudão um comboio com 17 caminhões que estariam a caminho do Egito com um carregamento de mísseis, supostamente de origem iraniana, destinados ao território palestino da Faixa de Gaza. Desde 2007, Gaza está sob controle político e militar do movimento extremista Hamas, que tem apoio de Teerã e travou na virada do ano uma miniguerra com Israel.

¿Operamos onde quer que possamos atingir a infra-estrutura do terror: em locais próximos ou distantes, atingimos a eles de uma maneira que reforce nosso sistema de dissuasão¿, disse Olmert, respondendo à imprensa sobre a reportagem da CBS. ¿Isso é verdadeiro em uma série de incidentes ao norte (de Israel) e em relação a incidentes registrados ao sul. Não é necessário entrar em maiores detalhes ¿ usem a imaginação¿, prosseguiu o premiê. ¿Quem precisava saber disso ficou sabendo que não existe lugar onde as forças armadas de Israel não possam agir.¿

Foi nos mesmos termos que o incidente foi avaliado pelo especialista israelense em contraterrorismo Ely Karmon, que veio a Brasília para uma série de conferências em que a crescente desenvoltura diplomática do Irã na América Latina foi o tema central. ¿Se isso não foi noticiado antes, foi porque o Sudão não quis¿, disse o estudioso em um almoço com jornalistas na residência da Embaixada israelense. ¿O Irã recebeu o recado¿, complementou, explicitando aquilo que o primeiro-ministro preferiu deixar subentendido.

Um ministro sudanês confirmou a ocorrência do episódio, identificando como alvo do ataque apenas como ¿contrabandistas¿, e a força que os atacou como ¿aviões estrangeiros¿. De acordo com as informações da inteligência israelense, o comboio estaria enviando para Gaza mísseis iranianos do tipo Farj, com os quais o movimento extremista palestino teria condições para atingir Telavive, a maior cidade de Israel. Durante semanas de confrontos com Israel, entre dezembro e janeiro, o Hamas disparou contra território israelense foguetes de fabricação própria, com menor alcance que os projéteis iranianos e quase nenhuma precisão.

Alianças Na avaliação de Karmon, pesquisador do Instituto Internacional de Contraterrorismo, na cidade israelense de Herzliya, o caos político e a localização estratégica fizeram do Sudão um dos focos do regime iraniano em sua busca de áreas de influência. Nos últimos anos, Teerã abriu centros culturais e mesquitas em cidades sudanesas, ocupando um espaço onde na década passada se movimentava a rede terrorista Al-Qaeda. Durante seu confronto com Israel, o Hamas teve apoio irrestrito do regime iraniano, que apressou-se em enviar a Gaza ajuda financeira e carregamentos de donativos, apresentados como ajuda humanitária.