Título: Doce espanto
Autor: Leitão, Míriam
Fonte: O Globo, 01/07/2009, Economia, p. 18

Para a minha geração de jornalistas, o dia primeiro de julho de 1994 é inesquecível. O drama da inflação enlouquecida parecia para nós, que entramos no jornalismo econômico nos anos 70, um inimigo invencível. Tê-lo vencido parece, ainda hoje, meio mágico. Certos detalhes, como estabelecer a meta de inflação para o ano seguinte ou ver que preços sobem e descem, ainda causam doce espanto.

O real é construção coletiva, ainda que a engenharia financeira que desmontou a armadilha da inércia inflacionária e a liderança política da travessia tenham pais conhecidos. É ocioso repetir seus nomes, a História os registra. O governo atual com sua compulsão de se ver como fato inaugural do Brasil e de todos os bons eventos bem que tenta a paternidade tardia. Mas só engana quem quer ser enganado.

O PT e o presidente Lula, na época, fizeram o que puderam, nas arenas política e jurídica, contra o plano. Hoje, ainda ameaçam alguns dos seus fundamentos como a responsabilidade fiscal, o controle do risco de crédito nas instituições públicas, a administração profissional nas estatais. A atuação do governo nas ações contra a atual crise, como a orgia de subsídios e benefícios anunciada esta semana, deixará uma herança fiscal complexa para ser resolvida no futuro.

Mesmo assim, o governo Lula, ao manter os pilares da política econômica da qual era adversário, deu um passo importante na longa jornada que nos levou da balbúrdia dos milhares por cento de inflação ao ano, à meta de 4,5% para 2010. Mais importante do que a disputa pela herança é ter noção da importância do feito, da longa jornada, ainda incompleta, que tem sido feita com sabedoria pela população que reage a qualquer risco de volta da inflação alta.

Tivemos décadas de tolerância à intolerável inflação. Até que reagimos. Isso me deixa esperançosa em relação a outros "intoleráveis" que temos aceitado. Quem sabe, um dia? A grande lição que ficou para quem acompanhou o processo é que houve decisões, em governos diferentes, que se complementaram, para garantir o projeto de ter uma moeda estável. Foi um processo e não a dádiva de um governante messiânico.

Nesta crise, a moeda passou por um grande teste. O dólar subiu, a incerteza ficou maior, mas os preços caíram. Em meados do ano passado o IGP-M acumulava 15% em 12 meses pelo efeito da inflação externa das commodities. Esta semana, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou que o IGP-M nos últimos 12 meses está em 1,52%. E os economistas acham que ela tende a zero no fim do ano. Os preços industriais no atacado acumulam no ano uma queda de 4,5%. No passado, um cenário de incerteza e um salto do câmbio levariam empresários a praticarem preços defensivos, ou ao repasse dos novos preços da moeda americana. Desta vez, os preços obedeceram a uma lei básica: como a demanda caiu, a economia esfriou e os preços caíram. Simples como em qualquer economia normal.

Normal pode ser uma palavra positiva demais para uma economia que ainda tem um emaranhado de normas, um resto de indexação e vários preços artificiais. Os preços das tarifas públicas são fixados por fórmulas que fizeram a proeza de produzir reajustes como o de 13% na energia dos paulistanos, e de 21% na energia do interior de São Paulo, num ano de queda de consumo. Os preços dos derivados de petróleo são ditados por uma empresa monopolista que está à salvo das leis de mercado, mas é dócil a leis partidárias. Há juros tabelados. Há juros lunáticos para consumidores e pessoas comuns, e juros abaixo do custo de captação do Tesouro para empresas que fazem parte da clientela dos bancos públicos. Normal, definitivamente, é uma palavra otimista demais para descrever nossa economia, mas não somos mais bizarros como éramos naquele tempo em que a Casa da Moeda tinha que trabalhar em três turnos para imprimir cédulas que perdiam metade do valor durante o processo de fabricação.

Agora podemos discutir questões assim: por que a inflação está em 5% (IPCA) numa economia em recessão? Devemos manter a meta de inflação anual eternamente em 4,5% ou já é hora de ousar mais e levar a taxa para os níveis de 2% que costumam ser seguidos em economias maduras?

Acredito que teria sido uma boa oportunidade para continuar derrubando a taxa. A meta de 4,5% passou a ser um piso abaixo do qual as autoridades não têm coragem de ir. Se fosse fixada para 2011 em 4%, seria mais fácil coordenar expectativas nesta direção, e talvez fosse mais fácil derrubar os juros. Há quem tema o contrário: que numa meta mais baixa, o Banco Central teria que subir os juros se ela fosse ameaçada.

Seja como for, amadurecemos. Há sempre tanto a fazer no Brasil que sobra pouco tempo para comemorar conquistas antigas. Quando há comemoração atualmente ela é tão contaminada pelo "nunca-antes" que fica difícil congratular o verdadeiro autor da façanha: o bravo povo brasileiro. Hoje, jovens não têm a menor idéia do que era aquele tormento, colecionam notas e histórias velhas. Tudo soa para eles como um passado remoto. E é passado. Constato sempre isso, com doce espanto.