Título: Estocando munição
Autor: Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 06/07/2009, O País, p. 3

Aliados de Sarney juntam denúncias contra oposição para diminuir pressão por afastamento

HERÁCLITO FORTES: "A crise é de 81 senadores. O Senado é gerido por todos"

SENADORA MARINA Silva: "É preciso interditar a falta de limites no Senado"

Adriana Vasconcelos

Pra administrar a pressão da oposição pelo afastamento do senador José Sarney (PMDB-AP) do comando da Casa, o PMDB está reforçando seu estoque de munição contra o DEM - que controla há anos a 1ª secretaria do Senado e, por consequência, o cofre da instituição - e cogita levar o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), ao Conselho de Ética. Apesar do apoio explícito do presidente Lula à permanência do aliado no cargo, os peemedebistas pretendem manter suspensas as negociações sobre as CPIs da Petrobras e do Dnit, como forma de pressionar o PT, que continua dividido, e os demais partidos da base a não criar novos constrangimentos a Sarney.

A avaliação da cúpula do PMDB é que o apoio de Lula e da presidenciável Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, a Sarney foi decisivo para que ele superasse o pior momento da crise, mas ainda restam dúvidas sobre sua resistência física e emocional a cobranças públicas em plenário. Por isso, a estratégia peemedebista é reagir de pronto a qualquer investida contra Sarney.

Diante das ameaças do PMDB, feitas apenas nos bastidores do Congresso, de trazer o DEM para o escândalo, o 1º secretário Heráclito Fortes (DEM-PI), afirmou:

- Não é por aí que se resolve a crise, é um erro. A crise é de 81 senadores. O Senado é gerido por todos. O problema é que houve uma anestesia coletiva. A Mesa (Diretora) não viu nada, os senadores não viram, e a imprensa não viu.

- Por isso defendo que tudo seja investigado pela Polícia Federal e não pela Polícia Legislativa - reagiu Virgílio.

Semana deverá ter mais demissões

Para mostrar ação, Sarney formaliza hoje a abertura de processo administrativo contra os dois ex-diretores da Casa já identificados como responsáveis pelos atos secretos: Agaciel Maia (ex-diretor-geral) e João Carlos Zoghbi (ex-diretor da Secretaria de Recursos Humanos). Ainda na área administrativa, outros dois ou três diretores ligados a Agaciel deverão ser demitidos esta semana.

Ao vincular a crise do Senado à eleição presidencial de 2010, o PMDB considera que conseguiu controlar a situação. Esse foi o tom das conversas que Sarney teve ontem com aliados como Renan Calheiros (PMDB-AL), Gim Argello (PTB-DF), e o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão.

- O espírito de Sarney está tranquilo e aliviado - disse Lobão.

A confiança desse grupo do PMDB não foi abalada nem mesmo pelos ataques do senador petista Tião Viana (AC) ao partido e ao "pragmatismo" de Lula. Em entrevista à revista "Veja", ele classifica o PMDB como a "essência do fisiologismo" e diz que Lula tem responsabilidade pela crise moral que atinge o Senado.

- O fisiologismo do PMDB é mesmo mais antigo do que o praticado pelo senador Tião Viana, que usa tecnologia 3G, ligada a satélite, e que garante o uso de celular no exterior - ironizou Wellington Salgado (PMDB-MG), referindo-se ao fato de o petista ter emprestado um celular do Senado à filha, que viajara para o México, e cuja a conta ultrapassou os R$14 mil.

Petistas insistirão no afastamento

O grupo de petistas que defendem o afastamento de Sarney - Tião Viana, Marina Silva (AC), Paulo Paim (RS), Eduardo Suplicy ( SP) e Flávio Arns (PR) - vai insistir na tese, na reunião da bancada prevista para amanhã.

- O presidente Sarney poderia surpreender a sociedade, assumindo ele mesmo a missão de encaminhar as investigações e uma reforma profunda na Casa e, depois, fazer um gesto pelo afastamento - disse Marina. - É preciso interditar a falta de limites no Senado. Ninguém está demonizando o presidente Sarney, mas seu afastamento do cargo é importante para a solução da crise.

- Recomendamos o afastamento do presidente Sarney, mas não podemos exigir isso, porque é uma decisão dele. Mesmo com as ponderações do presidente Lula sobre governabilidade, acho que essa é a solução que faz mais sentido - completou Suplicy.

Na oposição, DEM e PSDB tentam combinar uma estratégia única e contam também com a divisão do PT.

- A primeira coisa é harmonizar as ações dos tucanos e do DEM. Não podemos repetir a semana passada, em que tivemos atitudes não coincidentes - disse José Agripino Maia (DEM-RN).

- O presidente enquadrou o PT, mas ainda temos aquele grupo de cinco, que a qualquer momento pode pular para o lado de cá - disse Demóstenes Torres (DEM-GO).

Em outra frente, o PSDB volta com a CPI da Petrobras.

- Temos de deixar de fazer o jogo do governo. Essa crise só interessa ao governo. O escândalo na Petrobras é muito maior do que esse do senado - afirmou o autor do pedido de CPI, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR).

COLABORARAM Diana Fernandes e Luiza Damé