Título: Tarifas aéreas acima do mínimo
Autor: Ribeiro,Erica ; Casemiro , Luciana
Fonte: O Globo, 09/07/2009, Economia, p. 23

Aumento da demanda leva companhias a cobrarem até 93% além do novo piso da Anac

Erica Ribeiro e Luciana Casemiro

Por causa da demanda aquecida, as companhias aéreas que operam voos para Europa e EUA continuam cobrando dos passageiros tarifas acima do novo piso estabelecido pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Ao contrário do mês passado, quando algumas empresas chegaram a praticar a tarifa mínima, em julho - mês de férias escolares e verão no Hemisfério Norte - as altas em relação ao piso da Anac vão de 10% a 93%, segundo levantamento feito pelo GLOBO.

Com o objetivo de estimular a concorrência, a Anac vem promovendo desde 23 de abril a redução gradual do piso que as companhias aéreas podem cobrar para destinos na Europa, Ásia, EUA e Oceania. O limite em vigor está 20% abaixo da tabela original e, a partir do dia 23, passa a ser 50% menor.

Apesar de alguns preços terem recuado em comparação aos da tabela original da Anac, o desconto não alcança os 20%. No início do ano, por exemplo, uma passagem para Londres não poderia custar menos que US$869. Este mês, a British Airways está cobrando 12% menos em relação àquele piso, ou US$765 por um bilhete de ida e volta, partindo do Rio (para quem emitir a passagem até o dia 15).

Apesar da redução, o valor ainda está 10% acima do piso mínimo atual, de US$695. Esta tarifa chegou a ser praticada em junho pela British, quando a demanda estava fraca. José Coimbra, diretor-geral comercial da companhia, explica que sem um piso mínimo como balizador o mercado sempre terá oscilação de preços:

- Quando a demanda aumenta, os preços sobem. Isso porque as empresas devem sempre acompanhar as concorrentes, observar o mercado. Em junho, tivemos queda da demanda e, com isso, redução nos preços.

Gol: queda de 50% com gripe suína

A Air France tem bilhetes a partir de US$794 para Paris, 14% acima dos US$695 estabelecidos pela Anac como piso. Já a American Airlines oferece tarifa de US$1.096 entre Rio e Nova York, quase o dobro (93% a mais) do valor mínimo para a cidade americana, que é de US$566.

Segundo a Anac, a meta da redução do piso é estimular os descontos. Mas a agência já havia previsto que em épocas de alta demanda não ocorreriam muitas promoções.

Depois de muito pesquisar, a empresária Livia Bravin decidiu adiar mais um pouco o sonho da viagem que faria em setembro à Europa.

- Achei os preços das passagens ainda muito altos. Tudo acima de US$700. Isso sem contar as demais despesas com hospedagem, gastos adicionais. Vou esperar mais um pouco. Ou por alguma promoção.

Professor de macroeconomia do Ibmec-Rio, Marco Aurélio Cabral diz que no mês passado, a queda na demanda foi provocada pela proliferação dos casos de gripe suína, ou influenza A (H1N1). O baixo movimento estimulou promoções:

- Esse problema se sobrepôs ao efeito da crise econômica, e as empresas buscaram a redução de preços. Agora, com a alta da demanda, é natural que haja aumento de preços.

Em junho, a Gol estima que houve uma queda de cerca de 50% na taxa de ocupação de seus voos para a Argentina, principalmente os de fretamento. De acordo com o presidente da empresa, Constantino de Oliveira Júnior, mesmo tendo cancelado alguns voos para o país vizinho, a empresa ainda mantém as 14 frequências diárias. Mas, garantiu, não há cancelamentos definitivos.

- Não tem cancelamento definitivo de voos. São cancelamentos esporádicos. Nós tínhamos fretamento para Bariloche e houve redução, que é uma operação importante - revelou Constantino Jr.

Segundo ele, a queda na ocupação, comparada às médias do mesmo período de 2008, vem acontecendo sobretudo nas últimas três semanas, depois que o Ministério da Saúde recomendou que brasileiros desistam de um destino turístico tão vulnerável do ponto de vista da saúde pública. Alguns voos regulares para destinos argentinos também foram cancelados.

- Teve cancelamento de voo regular por falta de passageiro, mas ainda não é nada significativo, um voo em um dia, outro em outro (dia) - revelou Constantino Jr.

O governo enviará ao Congresso projeto de lei que altera regras no setor da aviação civil. Como pontos principais, a proposta permite o aumento da participação do capital estrangeiro em companhias nacionais de 20% para 49% e substitui o modelo de exploração do serviço de transporte aéreo, de concessão para autorização, sem prazo determinado. As alterações foram aprovadas ontem pelo Conselho de Aviação Civil (Conac) e alteram o capítulo VI do Código Brasileiro de Aeronáutica, que vigora há 22 anos.

Segundo o diretor do Departamento de Aviação Civil (Depac) do Ministério da Defesa, Fernando Soares, a ampliação do capital estrangeiro vai facilitar a criação de novas empresas.

COLABORARAM Adauri Antunes Barbosa e Geralda Doca