Título: Seis Meses na casa Branca
Autor:
Fonte: O Globo, 23/07/2009, O Mundo, p. 29

A batalha pela reforma da Saúde

Obama tenta convencer americanos a apoiá-lo na cobertura para todos

BARACK OBAMA: O presidente dos Estados Unidos iniciou o esforço final para tentar aprovar uma reforma histórica no sistema de saúde do país

Gilberto Scofield Jr.

Quando o presidente dos EUA, Barack Obama, escolheu a reforma do sistema de saúde americano como a sua grande bandeira de mudança ¿ ao tentar incluir quase 47 milhões americanos hoje sem seguro-saúde no sistema ao custo de mais de US$1 trilhão ¿, não imaginava que estava comprando uma batalha política que seus opositores republicanos tentam transformar em um Waterloo.

Ao pressionar o Congresso para que aprove a reforma antes do recesso de agosto, e tomando a defesa do projeto como uma das grandes causas de seu governo ¿ há anos governos democratas vêm tentando sem sucesso ampliar a cobertura do sistema e reduzir os seus custos para os cofres públicos ¿ Obama acabou transformando a briga pela reforma do sistema de saúde num dos maiores testes sobre sua capacidade de liderança. Caso seja aprovada, Obama poderá pleitear um posto no panteão dos grandes presidentes reformadores americanos.

¿ Temos que pôr um freio neste presidente. Ele vem num surto de gastos desde que assumiu a Presidência. Se pararmos Obama aqui, este será o seu Waterloo ¿ disse o senador republicano Jim DeMint sobre a reforma, citando a batalha que acabou com a carreira de Napoleão como imperador da França.

Ontem, Obama convocou uma entrevista coletiva ¿ a quarta em horário nobre de seu governo ¿ para influenciar americanos para que pressionem seus líderes políticos pela aprovação do projeto. E negou o viés político da reforma:

¿ Eu entendo como é fácil para esta cidade se consumir no jogo da política: transformar cada tema numa contabilidade sobre quem está por cima e quem está por baixo. Ouvi que um estrategista republicano disse ao partido que mesmo que eles queiram se comprometer com a reforma, a melhor política é cair matando. Outro senador republicano disse que derrubar a reforma de saúde iria me quebrar. Então deixem-me ser claro: isto não é sobre mim ¿ afirmou.

Popularidade do presidente está em queda

Para convencer a população, Obama frisou ontem que dois terços da reforma serão pagos meramente com ajustes nas atuais fontes de financiamento, como as isenções fiscais dadas às seguradoras de saúde que não se transformam em descontos para os segurados. Segundo ele, além do debate sobre os custos ser, na verdade, sobre um terço do total, a reforma, na verdade, diminuiria o déficit a longo prazo, pois acabaria com os crescentes gastos atuais do sistema.

¿ O problema não é só os 47 milhões de americanos sem seguro. A reforma tem a ver com todo americano que teme perder sua cobertura caso fique muito doente ou perca seu emprego ou mude de emprego. Tem a ver com todo pequeno negócio que vem sendo forçado a demitir empregados ou cortar suas coberturas porque ficou caro demais. E tem a ver com o fato de que o maior causador de nosso déficit federal são os custos extremos do Medicare (sistema de auxílio à saúde de idosos) e Medicaid (auxílio à saúde de famílias mais pobres) ¿ disse Obama ontem.

Trata-se de uma importante mensagem num momento em que uma boa parcela dos americanos não concorda com a maneira como o projeto de reforma do sistema será financiado: com uma cobrança adicional de impostos sobre as famílias mais ricas, sem falar na criação de uma empresa de saúde estatal que vai competir com as privadas numa hora em que o Estado só faz crescer.

¿ Se não controlarmos estes custos, não seremos capazes de controlar nosso déficit. Se não reformarmos o sistema de saúde, suas mensalidades e seus gastos vão continuar a aumentar. Estas são as consequências de não agir ¿ disse Obama. ¿ Tenho prometido que a reforma não vai aumentar o nosso déficit ao longo da década, e reforço isso.

O público americano, bombardeado por anúncios de ambos os lados, parece confuso, pois sabe que o atual sistema de saúde é falho e caro ¿ o gasto anual médio das famílias com saúde é hoje de US$15 mil ¿ mas não enxerga com clareza a melhor maneira de consertá-lo. Há uma certa aflição no ar, que se soma a outras frustrações, como a sensação de que o pacote de estímulo está custando a reerguer a economia e baixar os altos índices de desemprego. Empresários, economistas e políticos criticam o crescente déficit e o alto endividamento público.

Tudo isso se reflete nas pesquisas. Os níveis de aprovação de Obama estão em torno de 50%. São índices ainda altos, mas os mais baixos dos seis meses de governo. E só fazem cair. Segundo o Instituto Gallup, a aprovação de Obama caiu de 69%, em janeiro, para 57% ¿ um nível ainda bom se considerados os índices dos ex-presidentes Bill Clinton e George W. Bush nos seis primeiros meses de mandato. Mas 54% dos entrevistados acham que o país caminha na direção errada. Jornal: O GLOBO