Título: PF investiga ex-ministro por suposto tráfico de influência
Autor: Braga, Isabel; Jungblut, Cristiane
Fonte: O Globo, 27/07/2009, O País, p. 3

Em gravação, empreiteira pede a Silas Rondeau "apoio" na Eletronorte

Chico de Gois

SÃO LUÍS. Interceptações telefônicas captadas pela Polícia Federal, com autorização judicial, sugerem que a construtora Norberto Odebrecht procurou o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau para que ele atuasse junto à Eletronorte, que presidira, a fim de facilitar a participação da empreiteira num contrato de construção de hidrelétrica no Amapá. Nos diálogos, Silas afirma que "o senador está muito interessado no projeto", em referência, segundo a PF, ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). A PF anota no relatório que as conversas podem significar "possível cogitação de fraude a licitação ou advocacia administrativa ou tráfico de influência".

Investigado por ligações com Fernando Sarney, filho do senador, como mostrou reportagem do GLOBO de ontem, Silas chegou a ter prisão pedida pela PF, a partir de relatório do Ministério Público que o acusa de usar laranjas para criar empresas de consultoria no setor de energia. Apesar disso, foi reeleito para o Conselho de Administração da Petrobras, com apoio de representantes do governo na estatal. A primeira conversa gravada entre Silas e o representante da construtora, que a PF identifica como Roque, é de 17 de abril de 2008, às 10h39min. É Roque quem liga para Silas e diz que quer encontrá-lo porque precisa de um favor. "Ao que parece, a Odebrecht quer intervenção de Silas junto à Eletronorte para se mobilizarem para dois projetos relacionados à energia no Amapá", observa a PF.

Roque: - Silas, o que eu queria te comentar era o seguinte, rapaz: nós estamos precisando de um apoio seu junto àquela empresa (em) que você tanto trabalhou. Naqueles dois programas lá do Amapá, pô. (...) Porque a gente tá com interesse total, viu, Silas? Porque, pra gente se mobilizar, tem que ser pros dois, entendeu?

Silas: - E eu estou absolutamente de acordo, que não pode, esse negócio não pode. Não tem dono, isso aí, pô. A Eletronorte, ela tem que atuar com todos os pleas (sic) que sempre foram parceiros ao longo do tempo. De repente, não pode fazer casamento com um só.

O representante da Odebrecht volta a pedir a ajuda do ex-ministro:

Roque: - E a intenção, o que que é? Fazer uma parceria. Trabalhar junto com a Eletronorte. E, se você pudesse dar uma força, junto lá, ao pessoal, pra ver se... Porque agora tem que estudar. Quer dizer, então, acabar esse estudo de uma vez, né?

Amigo de Fernando Sarney faz várias referências a "senador"

"Em suas conversas, Silas, quando percebe que já estão falando muito ao telefone, tenta dar ares de legalidade ao assunto, ao que parece preocupado com eventual monitoramento telefônico. Por isso diz que "irão licitar" ou que "o melhor que ganhe". Nesta conversa, resta claro que a Odebrecht procura Silas com vistas óbvias ao atendimento de interesses particulares. Por isso Silas também faz questão de exaltar a importância para o país", diz o relatório da PF.

Os dois combinam de se falar na semana seguinte. Em 24 de abril, Silas e Roque voltam a conversar. O ex-ministro diz que passaria na casa de Sarney, para tomar um café com ele. Era dia do aniversário do senador. Silas refere-se a ele como "nosso amigo José".

Silas: - Eu posso fazer o seguinte. Passar por aí na ida, tá? Porque é o seguinte: hoje é o aniversário lá do nosso amigo José. E ele vai viajar. Tá?

Roque: Certo.

Silas: Tá aí o Fernando. Tá todo..., tá? - diz, em provável referência a Fernando Sarney, filho do senador e seu amigo.

O representante da Odebrecht informa que já está com os registros prontos para a obra no Amapá. E diz que Ademar - supostamente Ademar Palocci, diretor de Planejamento e Engenharia da Eletronorte - pediu que ele conversasse antes com Silas:

Roque: - Porque, veja bem. Deixa eu te falar um minuto. O importante aí é o seguinte: nós estamos com registro lá dos projetos do Amapá pronto.

Silas: - Era isso que eu ia falar...

Roque: Ademar falou assim: "Não, dá uma segurada até você conversar com Silas". Falei: "Tá bom". Porque nós estamos perdendo muito tempo, sabe, Silas? Começar a estudar. E, depois, a nossa amiga aqui, de Brasília, a Eletronorte, entra junto. Não tem problema nenhum.

Silas faz questão de frisar que "o senador" - que, para a PF, é Sarney - tem interesse no projeto.

Silas: - Porque isso é importante pro país. O senador tá... tá... tá... muito interessado... O senador, não. O governador, o senador, todo mundo muito interessado nisso, lá.

O GLOBO não conseguiu localizar o ex-ministro. A reportagem também não conseguiu falar com a empreiteira Norberto Odebrecht.