Título: Queda-de-braço no câmbio
Autor: Rangel, Juliana; Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 06/08/2009, Economia, p. 23
Dólar cai para R$ 1,81 com especulação de investidores estrangeiros
Juliana Rangel e Patrícia Duarte RIO e BRASÍLIA
A enxurrada de dólares de investidores estrangeiros para a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), combinada a especulações no mercado futuro de câmbio, fez o dólar cair ontem pelo quinto dia seguido. A moeda recuou 0,71%, para R$ 1,81, o menor valor desde 22 de setembro, quando fechou a R$ 1,792. Para tentar conter a derrocada da moeda, o Banco Central (BC) aumentou seu poder de fogo na semana passada: comprou US$ 1,5 bilhão no mercado à vista entre 23 e 31 de julho, segundo dados divulgados ontem. O volume corresponde a 70,8% do total comprado no mês. Para a própria equipe econômica, o movimento especulativo de investidores internacionais que ancora a forte desvalorização (22,45% no ano) leva a cotação ao limite sustentável.
Os integrantes dizem que, se a moeda encostar em R$ 1,60, ¿será um desastre¿.
Isso porque o efeito sobre a balança comercial ¿ reduzindo seu saldo, já que barateia as importações e reduz a competitividade dos produtos nacionais no exterior ¿ e as remessas de lucros e dividendos ¿ estimulando o envio de dinheiro ao exterior ¿ abriria um rombo nas contas externas. Quando esse sinal vermelho aparece, a reversão do câmbio costuma ser rápida e brusca, causando desequilíbrios macroeconômicos.
Até junho, segundo o BC, o déficit em transações correntes acumulado no ano é de US$ 7,074 bilhões, ainda compensado pelos investimentos estrangeiros diretos (IED), que somaram US$ 12,684 bilhões no período.
A avaliação de que o movimento atual é especulativo concentra-se no fato de o fluxo cambial geral (entrada e saída de dólares) ter fechado julho com saldo positivo de US$ 1,270 bilhão e o BC ter comprado no mercado à vista US$ 2,164 bilhões. Ou seja, em tese, mais do que suficiente para enxugar o ¿excesso¿. A percepção de analistas, no entanto, é que a atuação do BC está sendo inócua porque, segundo dados da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F Bovespa), o volume de contratos de bancos que apostam na queda da moeda supera os que esperam alta da cotação em US$ 1,608 bilhão. No caso dos investidores estrangeiros, a diferença chega a US$ 2,267 bilhões. A lógica é que a cotação estará mais baixa lá na frente, e eles terão lucro com a diferença entre o preço acertado na operação e o vigente no vencimento dos contratos.
¿ Ao comprar dólares no mercado à vista, o BC neutraliza totalmente o fluxo cambial (efeito da entrada de recursos), mas não tem instrumentos para neutralizar essa ação no mercado futuro de dólar. Assim, a apreciação do real acontece mesmo com fluxo cambial negativo, o que é contraditório ¿ diz o diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme.
Ele explica que o mercado à vista tem correlação com o futuro. Ou seja, a tendência, seja de queda ou alta, é sempre a mesma. Por isso, um recuo acentuado no mercado futuro estaria influenciando as cotações, ao contrário do que costuma acontecer, já que geralmente é o preço à vista que ajuda a formar o futuro. Para o analista de câmbio da BCG Liquidez Mário Paiva, a moeda poderá chegar a R$ 1,80 nos próximos dias. Os dólares que o BC compra são depositados nas reservas internacionais do país, que somam US$ 212,105 bilhões atualmente, marca recorde.
Mercadante a Meirelles: `Volte para a vida pública¿
Em julho, o fluxo cambial financeiro ficou positivo em US$ 4,103 bilhões, o maior desde junho de 2007 (US$ 6,095 bilhões), segundo o BC.
Foi o quarto mês seguido de superávits, que, no ano, acumulam US$ 3,935 bilhões. O mês passado, por outro lado, não foi positivo para o fluxo comercial, que registrou déficit de US$ 2,833 bilhões. Trata-se do pior resultado da série histórica do BC, iniciada em janeiro de 1982.
Ontem, o presidente do BC, Henrique Meirelles, fez um novo alerta para o que classifica de ¿excesso de euforia¿ do mercado. A Bovespa fechou ontem em alta de 0,62%, aos 56.384 pontos, nível máximo do ano.
¿ Hoje, o Brasil é uma estrela sob a perspectiva econômica. Isso, no entanto, não pode servir de base para euforias ou exageros de precificações. Porque exagerar leva sempre a volatilidades ¿ afirmou Meirelles, que participou de uma audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.
O objetivo da audiência era discutir a realidade econômica do Brasil e do mundo, mas acabou se tornando um ato de apoio político a Meirelles. Senadores da base aliada e da oposição incentivaram o presidente do BC a filiar-se a um partido político e sair candidato nas eleições de 2010. O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) defendeu que Meirelles, mesmo ligado a um partido, continue à frente da instituição.
¿ Está na hora de o senhor voltar à vida pública ¿ afirmou Mercadante, referindo-se ao fato de Meirelles ter sido eleito deputado federal pelo PSDB goiano em 2002, cargo de que abriu mão para assumir o BC do então recém-eleito presidente Lula.
Meirelles tem trabalhado fortemente para sair candidato a governador de Goiás, sua terra natal, no ano que vem. Para tanto, negocia uma filiação ao PP. O prazo de filiação vai até o fim de setembro. Outros senadores também apoiaram a ideia, caso de Lúcia Vânia (PSDB-GO), Roberto Cavalcante (PRB-PB) e do presidente da CAE, senador Garibaldi Alves (PMDB-RN).