Título: Para especialista, controle deve ser mesmo do Estado
Autor: Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 23/08/2009, Economia, p. 35

Criação de empresa pública para gerir o pré-sal é criticada

BRASÍLIA. Se muitos empresários veem com apreensão e ceticismo o fortalecimento de estatais estratégicas, como Petrobras e Eletrobrás, para recolocar o Estado como protagonista do desenvolvimento econômico do país, também existem argumentos fortes em defesa do modelo em gestação pelo governo federal.

O professor Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ, lembra que energia é um insumo estratégico no mundo contemporâneo e que cabe ao Estado planejá-lo.

¿ Tanques, aviões e navios de guerra, além de toda a economia, se movimentam com petróleo, e administrar reservas desse porte é algo que cabe ao Estado ¿ defende. ¿ Não se trata de eliminar a participação das outras empresas, mas subordiná-las aos interesses nacionais.

O professor Nivalde Castro, também da UFRJ, lembra que o planejamento estatal se fez ¿ e se faz ¿ necessário em momentos de crise. A criação da Empresa de Planejamento Energético (EPE) no atual governo assumiu esse papel, sobretudo após o racionamento de 2001.

¿ Mas, após indicar onde devem ser os investimentos, o governo não pode ficar esperando a iniciativa privada decidir investir, e por isso deve usar as suas estatais ¿ diz.

Zylbersztajn: trata-se de burocracia desnecessária Essa participação estatal é vista com cautela pelos empresários.

O presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Salles, que reúne os investidores privados em energia elétrica, lembra que, apesar de a Eletrobrás ter anunciado investimentos nos últimos anos, nunca chegou a concretizá-los integralmente.

¿ Desde 2004, a Eletrobrás anunciou investimentos que somavam R$ 25,8 bilhões, mas só aportou efetivamente R$ 16,1 bilhões, 62% do previsto ¿ diz.

O consultor David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), critica principalmente a criação de uma nova estatal para cuidar do pré-sal: ¿ Meu pavor é como vai ser tocada essa empresa, com diretorias indicadas por políticos.

Estamos criando um monstro, e não estou falando desse governo, mas dos próximos, que ninguém sabe quem será ¿ diz.

Segundo ele, a ideia do governo de controlar a exploração do pré-sal vai contra a lógica econômica moderna: ¿ Isso está parecendo a velha União Soviética, trata-se de uma burocracia desnecessária.

Ainda assim, Salles, do Acende Brasil, admite que o aumento da participação estatal no setor elétrico não foi suficiente para afastar os investimentos privados.

Os empresários também admitem que a iniciativa privada continuará atuando no país, como coadjuvante ou não.

¿ As empresas querem fazer negócio e ganhar dinheiro.

Se o modelo permitir, continuaremos por aqui ¿ diz um empresário. (Gustavo Paul)