Título: O garoto que enfrentou militares no Araguaia
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 23/08/2009, O País, p. 16

José Wilson Brito, hoje com 49 anos, conta ter participado do tiroteio em que a guerrilheira Sônia teria sido morta

JOSÉ WILSON BRITO diante sua casa em Tartarugalzinho, no Amapá, exibe a carteira de assentado: ¿(Os guerrilheiros) eram boas pessoas¿

MILITARES, técnicos e policiais iniciam as escavações na Fazenda Tabocão, em São Domingos do Araguaia (PA)

TARTARUGALZINHO (AP). O personagem central de um dos episódios mais marcantes nos confrontos entre militares e guerrilheiros do PCdoB, na Guerrilha do Araguaia, na década de 70, somente agora tem conhecidos a identidade, o rosto e o paradeiro. O menino camponês que aos 13 anos seguiu para a mata com os comunistas é José Wilson Brito, hoje com 49 anos. Ainda garoto, ele estava ao lado da guerrilheira Lúcia Maria de Souza, de codinome Sônia, quando ela foi morta em combate com a tropa do então capitão Sebastião Curió, na região do Araguaia, em 24 de outubro de 1973.

Wilson, pela primeira vez, fala sobre o assunto, dá detalhes dos três meses em que conviveu com os guerrilheiros e com os soldados. Capturado pelo Exército no fim daquele ano, ele ficou três anos em poder dos militares, que o usaram para reconhecer terroristas e dar informações sobre a localização deles na selva amazônica.

Num momento em que o governo está em busca de restos mortais de desaparecidos políticos no Araguaia, Wilson dá pistas de lugares onde podem ter sido sepultados alguns militantes. Ele diz lembrar com exatidão o local onde foi enterrado o corpo de Rodolfo Troiano, o Manoel, próximo à sede de uma fazenda no Tabocão. Diferentemente da versão oficial, Wilson desconfia dos relatos de que o corpo de Sônia ficou exposto sobre a terra durante um bom tempo, e diz não acreditar que ela esteja enterrada na região de Água Fria, onde nada foi encontrado.

Ilsinho usava um 38 cano longo

Tratado pelos guerrilheiros como Ilsinho, o pequeno camponês conviveu com o grupo do Destacamento A, onde aprendeu técnicas de guerrilha e manuseio de armas. Usava sempre um revólver calibre 38, de cano longo. Pessoa simples e sem escolaridade, Wilson até hoje não sabia que aquelas pessoas usavam nomes de guerra, ou codinomes, e que o acampamento que frequentou chamava-se Destacamento A. Só se refere aos militares como ¿os federais¿.

Desde 1990, ele vive em Tartarugalzinho, no interior do Amapá, a 200 quilômetros de Oiapoque, no extremo Norte do Brasil. Por ser um tipo ruivo, ganhou o apelido de Fogoió (cabelo cor de fogo), que, coincidentemente, é o codinome de um dos 60 militantes do PCdoB no Araguaia. Wilson é um assentado da reforma agrária, vive numa casa modesta de madeira, localizada numa rua de terra.

Como outras famílias camponesas que eram abordadas pelos guerrilheiros, os parentes de Wilson os receberam em casa. Desconheciam o propósito daquela gente. Wilson conta que decidiu acompanhá-los em troca da promessa de que dariam a ele condições de estudar.

¿ Eles eram boas pessoas, tratavam a gente bem, davam remédio e ajuda médica. Não é porque me fizeram essa tragédia, que quase morri, que vou desdenhar deles, dizer que não eram bons. Eles me prometeram escola que nunca chegou. Acho que estava doido quando decidi ir junto ¿ disse Wilson.

O ¿quase morri¿ tem relação com o embate que vitimou Sônia. Ele lembra dessa passagem com detalhes e, sem saber, ajuda a esclarecer versões oficiais dessa história. Naquele dia, Wilson deixou o acampamento com a guerrilheira para buscar dois outros companheiros ¿ Valdir (Uirassu Batista) e Cristina (Jana Barroso) ¿ que chegariam à região. Por volta de 15h, passaram pela casa de um mateiro aliado, o Peixinho, e, depois, seguiram para ponto de encontro, na localidade de Bom Jesus.

Sônia retirou o coturno para atravessar um brejo. Quando os dois voltaram, o par de botas tinha desaparecido. Segundo Wilson, ela achou que Valdir e Cristina tinham passado por ali e levado o calçado. Wilson desconfiou e achou que não. Por volta de 18h, ele viu os militares, que gritaram mandando não correr. Logo começaram os disparos.

¿ Saí correndo. Meu revólver caiu e voltei para pegá-lo. Sônia ficou e trocou tiros com eles. Não consegui dar um tiro. Sentia vento de bala passando do meu lado. Pensei que estava varado. Foram 45 minutos de tiros ¿ revelou Wilson, que não viu Sônia ser morta pelos militares.

Os relatos oficiais desse episódio contam que Sônia foi atingida, caiu, e, ainda assim, conseguiu atirar e acertar Curió e o rosto do coronel Lício Maciel, que comandava aquela ação. No chão, foi morta com mais de 80 tiros. Wilson lembra que ele e Sônia treinavam tiro juntos.

¿ Fazia a mira na árvore, a dez metros de distância, e usava como alvo. A Sônia acertava na cabeça. Ela usava um 38 e uma espingarda calibre 20. Um dia, me pediu para segurar um cigarro para ela atirar. Não fui, não sou louco. Duda (Luís Renê Silveira) segurou, e o tiro foi no danado do cigarrinho.

De tanto usar arma do lado direito, ele diz que, por ser pequeno, ficou ¿cambado para o lado¿, ou seja, com o corpo torto. A arma pesava. No acampamento, todos comiam tatu. Mas quando o cerco dos militares fechou, não cozinhavam para não dar pistas aos militares.

¿ Passei uma semana comendo somente farinha.

Depois de quase ter morrido na emboscada a Sônia, Wilson decidiu ir embora, mas diz que não conseguiu ser liberado pelos guerrilheiros. Numa última tentativa, revelou que planejava matar o comandante do Destacamento A, André Grabois, o Zé Carlos. Foi liberado e acompanhado até certo ponto da mata, quando teve de devolver seu revólver a Grabois.

¿ Fiquei com medo de me matarem.