Título: Receita anticrise racha G-20
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 24/09/2009, Economia, p. 29
EUA defendem reforma financeira com supervisão do FMI, mas UE quer órgão independente
Em seu terceiro encontro depois do colapso do banco Lehman Brothers, em setembro do ano passado, e com o pior da crise econômica já no retrovisor, o G20 ¿ que reúne as principais economias do mundo ¿ se reúne hoje e amanhã em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Os países vão discutir a melhor estratégia para evitar futuras crises financeiras, mas ainda não há consenso sobre as três principais propostas: a reforma do sistema financeiro internacional (incluindo o papel do Fundo Monetário Internacional), o esforço para dar mais equilíbrio à economia mundial e o jogo de forças entre ricos e emergentes, dentro da nova composição de quotas do FMI e do Banco Mundial.
Na linha de seu discurso em prol do multilateralismo e em defesa da governança responsável, proferido ontem na ONU, o presidente americano, Barack Obama, vai apresentar uma proposta para fortalecer a economia mundial: cada país trabalharia para acabar com seus pontos fracos, a começar pelos próprios EUA, que focariam na redução do déficit e do endividamento públicos e estimulariam a poupança interna. Países fortemente exportadores, como China e Japão, teriam de cuidar do consumo doméstico, e assim por diante.
¿ Trabalharemos com as maiores economias do mundo para traçar um curso de crescimento que seja equilibrado e sustentável ¿ afirmou Obama. ¿ Isso significa estabelecer novas regras e fortalecer a regulação para todos os centros financeiros, para que se coloque um fim à ganância, ao excesso e ao abuso que nos conduziram ao desastre, e impedir que uma crise como esta aconteça de novo.
Até aí praticamente todos os demais membros do G-20, e a União Europeia (UE), concordam.
Mas e se a virtude econômica de um país não for vista assim pelos demais? Para coordenar a ação, os EUA sugerem que o FMI faça relatórios semestrais sobre eventuais fragilidades econômicas, uma ideia que assusta os emergentes, traumatizados por anos de receitas equivocadas do Fundo nas suas próprias crises.
Lula: `crise dos grandes dogmas¿ dos ricos
Dentro dessas discussões estaria também a chamada saída estratégica, ou seja, como os países vão acabar com os pacotes de estímulo usados para reativar suas economias. Para alguns especialistas, essa saída tem de ser coordenada para não causar desequilíbrios globais.
Mas há divergências. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores da China concordou sobre a necessidade de coordenação nas estratégias macroeconômicas, mas faz questão de ter soberania para tomar decisões, incluindo a de suspender as medidas de estímulo. Já a Alemanha nem quer discutir o tema: ¿ Isso é uma questão de longo prazo.
Preferimos nos focar na reforma do sistema financeiro ¿ disse o porta-voz do governo alemão, Ulrich Wilhelm.
O Reino Unido apoia os EUA, mas, para a UE, o que interessa é a regulamentação do mercado financeiro. O bloco já prepara o projeto de um organismo para monitorar o sistema financeiro. A UE e os emergentes esperam algo semelhante em escala global, mas os EUA discordam. Para americanos e ingleses ¿ os mais ativos e influentes mercados financeiros globais ¿ a fiscalização pode ficar a cargo do FMI, que teria seu papel expandido.
Também na Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a reforma do sistema financeiro global: ¿ Mais do que a crise dos grandes bancos, essa é a crise dos grandes dogmas. O que faliu foi um insensato modelo de pensamento e de ação, que subjugou o mundo nas últimas décadas. Foi a tese da liberdade absoluta para o capital financeiro, sem regras, nem transparência, acima dos povos e das instituições. Foi a apologia perversa do Estado mínimo, atrofiado, fragilizado, incapaz de promover o desenvolvimento e de combater a pobreza e as desigualdades. A demonização das políticas sociais, a obsessão de precarizar o trabalho, a mercantilização irresponsável dos serviços públicos.
Lula lembrou que, um ano após a crise, ¿ainda não há uma clara disposição para enfrentar as graves distorções da economia global¿: ¿ O fato de ter sido evitado o colapso total do sistema parece ter provocado em alguns um perigoso conformismo. A maioria dos problemas de fundo não foi enfrentada, e há enormes resistências a adotar mecanismos efetivos de regulação dos mercados financeiros.
O G-20 também não tem consenso sobre um limite para a remuneração dos executivos de bancos, considerada um dos pivôs da crise por alimentar a busca desenfreada pelo lucro. Alemanha e França querem limites já, mas os EUA são contra e defendem a redução do capital dos bancos para investimentos, especialmente em produtos sofisticados, como derivativos.
COLABOROU Marília Martins, correspondente, de Nova York