Título: Zelayistas não dividem comida
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Fonte: O Globo, 24/09/2009, O Mundo, p. 35
Sitiados, funcionários da embaixada brasileira passam fome
SÃO PAULO. Abrigados desde segunda-feira na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, simpatizantes do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, recusaram-se a dividir a comida recebida de organismos internacionais com os funcionários brasileiros da representação diplomática. Segundo relatos, as tropas golpistas sitiaram a embaixada e proíbem a entrada de mantimentos.
¿ A ONU mandou alguma comida para a embaixada e quem recebeu foi o pessoal do presidente Zelaya. Como ninguém nos ofereceu comida, fomos pedir a um auxiliar de Zelaya, mas ele disse que a comida era só para eles (hondurenhos) ¿ disse Isabel Cabral, funcionária da embaixada brasileira que mora há 30 anos em Honduras.
Até anteontem havia 16 funcionários na embaixada.
Doze foram retirados na terça-feira à noite com ajuda da Embaixada dos Estados Unidos, que forneceu pessoal de segurança e um microocirc;nibus.
Na representação diplomática ficaram apenas o encarregado de negócios, Francisco Catunda, único diplomata brasileiro em Honduras, um técnico em comunicações também brasileiro, um motorista e um mecânico, ambos hondurenhos.
As tropas da polícia e do Exército que sitiaram a embaixada desde terça-feira de manhã não permitem o acesso à representação diplomática brasileira.
¿Tentamos levar comida e algumas vestimentas para o nosso pessoal, que está desde segunda-feira só com a roupa do corpo, mas fomos impedidos de passar ¿ disse Isabel.
Segundo ela, o jeito foi mandar um ¿saquinho¿ com comida por meio de um vigia.
¿ A empresa de segurança que presta serviços para a embaixada conseguiu autorização para trocar o guarda. Aproveitamos para mandar um saquinho com comida ¿ relatou Isabel.
Além disso, ela procurou uma das filhas de Zelaya para pedir que os hondurenhos compartilhem a comida com os brasileiros.
¿ Conheci uma das filhas do presidente e liguei para ela, pedindo para dividirem a comida que a ONU e a Embaixada dos EUA estão mandando. Ela ficou horrorizada ao saber que os brasileiros não recebiam comida e ia falar com o pai. Acho que agora a situação deve estar resolvida ¿ contou.
Depois de passar dois dias presa na embaixada, Isabel não encontrou uma situação muito melhor nas ruas de Tegucigalpa ontem.
¿ Houve saques a supermercados e a uma loja de eletrodomésticos. Nas lojas de comida é impossível comprar qualquer coisa pois tem muita gente ¿ contou.
Funcionários da embaixada acreditam que depois de ter cortado as linhas de telefonia fixa da embaixada, o governo golpista teria instalado dois bloqueadores de celular em casas vizinhas à representação diplomática do Brasil em Tegucigalpa.
¿ Os celulares só pegam em alguns lugares da casa ¿ disse Isabel.
A também brasileira Diacuy Mesquita, mineira de Governador Valadares que se casou com um hondurenho e vive há 32 anos em Tegucigalpa, fez um relato da situação.
¿ A cidade está um caos. É a única forma de explicar. O governo levantou o toque de recolher por algumas horas ontem à tarde e o caos ficou ainda maior. Todo mundo saiu para comprar. Os postos de gasolina também ficaram impraticáveis.
Os bancos abriram por poucas horas e as filas eram enormes, ninguém conseguia sacar dinheiro.
Escola e trabalho não existem. Ninguém faz mais nada aqui ¿ resumiu Diacuy.
Consultora que presta serviços a programas sociais em várias áreas do país, Diacuy viu de perto as principais calamidades que atingiram Honduras nas últimas três décadas, na maior parte furacões, mas está impressionada.
¿ É a primeira vez que vejo o país deste jeito.
Nem nos furacões esteve tão ruim. A sociedade está dividida entre os que apoiam Zelaya e os golpistas.
Nos furacões havia solidariedade. Agora não porque as pessoas estão em lados opostos.