Título: Chega a vez do núcleo político
Autor: Franco, Bernardo Mello e Brígido, Carolina
Fonte: O Globo, 27/08/2007, O País, p. 3

MENSALEIROS NO TRIBUNAL

STF analisa acusação de corrupção e formação de quadrilha contra Dirceu e outros petistas.

Como um roteirista de filme de suspense, o relator do inquérito do mensalão no Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, guardou para o fim do julgamento o principal capítulo da denúncia contra os 40 acusados de operar o esquema. Os integrantes da Corte começam a analisar hoje, a partir das 14h, o item que trata do suborno de parlamentares de quatro partidos aliados - PP, PTB, PR (ex-PL) e PMDB - em troca de apoio ao governo Lula no Congresso. Na berlinda, estará o ex-chefe da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu (PT-SP), descrito como líder da organização criminosa responsável pelos pagamentos. Dirceu também será a figura central na parte seguinte do julgamento, a denúncia de formação de quadrilha - da qual ele seria o chefe, segundo a denúncia - que acontecerá amanhã.

A possibilidade de serem aceitas as denúncias de corrupção ativa e/ou formação de quadrilha contra o ex-homem forte do governo petista é motivo de apreensão no Planalto. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha evitado falar sobre o julgamento, seus auxiliares e dirigentes petistas admitem desgastes para o governo caso seja aberta ação penal contra Dirceu. Se for aceita contra ele no julgamento de hoje, Dirceu responderá a processo pelo crime de corrupção ativa, com pena de dois a 12 anos de cadeia.

- Esse é o capítulo mais complicado da denúncia, porque envolve políticos de diversos partidos e do governo. É possível que a análise se estenda até a sessão de terça-feira (amanhã) - admitiu ontem o ministro Barbosa.

Segundo o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, Dirceu comandava o chamado núcleo central da quadrilha do mensalão. Integram o grupo o deputado José Genoino (PT-SP), ex-presidente do partido; Delúbio Soares, ex-tesoureiro; e Silvio Pereira, ex-secretário-geral. "Toda a estrutura montada por Dirceu, Delúbio, Genoino e Silvio Pereira tinha entre seus objetivos angariar ilicitamente o apoio de outros partidos políticos para formar a base de sustentação do governo federal", diz a denúncia.

Também foram indiciados por corrupção ativa os integrantes do núcleo publicitário do esquema: Marcos Valério e seus sócios e funcionários. De acordo com o Ministério Público, eles se encarregavam do pagamento das propinas em dinheiro vivo, escondido em malas, envelopes e sacos de lona, e autorizavam os saques na boca do caixa da agência do Banco Rural em Brasília.

Denúncia separa parlamentares por partido

A denúncia separa por partido a lista de oito parlamentares beneficiados pelo mensalão, que podem responder por corrupção passiva. O procurador acusa integrantes do PP de receber R$4,1 milhões entre 2003 e 2004. No PR (ex-PL), o principal acusado é o deputado reeleito e ex-presidente do partido Valdemar Costa Neto (SP). Ele e dois assessores teriam recebido R$10,8 milhões. O ex-deputado Carlos Rodrigues (RJ), conhecido como Bispo Rodrigues, teria sacado outros R$150 mil na agência do Banco Rural.

No PTB, foram denunciados o deputado cassado e presidente do partido Roberto Jefferson (RJ), que admitiu ter recebido R$4 milhões de Marcos Valério em nome do PT. Encerra a lista, pelo PMDB, o ex-líder na Câmara José Borba (PR), que teria recebido R$2,1 milhões do valerioduto e renunciou no auge do escândalo para evitar a cassação.

No julgamento do item da denúncia em que o núcleo central do esquema do mensalão é acusado de formação de quadrilha, volta a estar em jogo o futuro de Dirceu, Genoino, Delúbio, Silvio Pereira e dos integrantes dos núcleos publicitário e financeiro. No último grupo, foram indiciados a presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, e seus diretores José Roberto Salgado, Ayanna Tenório e Vinicius Samarane. Para configurar formação de quadrilha, o STF precisa transformar em réus pelo menos quatro indiciados.

Por último, os ministros devem decidir se o publicitário Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes responderão por evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A dupla é acusada de receber dinheiro do valerioduto e enviar para contas no exterior de forma ilegal. Em depoimento à CPI dos Correios, Duda disse ter recebido do PT R$10,5 milhões numa conta em Miami, em nome de empresa offshore com sede nas Bahamas.

De acordo com o relator, o julgamento pode se estender até quarta-feira. Ontem, o ministro Marco Aurélio de Mello admitiu, por telefone, estar entediado com a demora das discussões.

- As sessões estão muito cansativas. Ouvir todos aqueles advogados, para quem está acostumado com uma vida mais dinâmica, chega a ser tedioso - disse.

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