Título: Soldados em marcha eleitoral
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 30/08/2007, O Mundo, p. 36
Chávez e oposição criam grupos para fazer campanha contra e a favor de reforma.
Mais uma vez, seguidores e opositores do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, preparam-se para uma nova queda-de-braço eleitoral: agora para decidir se a Constituição do país, aprovada pouco depois da chegada do líder esquerdista ao poder, em 1999, será reformada. Nos últimos dias, chavistas e antichavistas começaram a traçar suas estratégias de campanha. O governador do estado de Zulia, Manuel Rosales, que no ano passado foi derrotado por Chávez na eleição presidencial de dezembro, anunciou a criação de 130 mil "comandos pela liberdade", que serão instalados em todo o país para "explicar aos venezuelanos que este projeto de reforma é uma armadilha criada por Chávez para perpetuar-se no poder". Já o governo, em meio a fortes críticas da comunidade internacional - sobretudo pela iniciativa de Chávez de aprovar a reeleição contínua para a Presidência - criou uma comissão especial a fim de apresentar e explicar a reforma em diferentes países.
- Este é um plano que busca consolidar a imagem de uma revolução em plena democracia, em pleno processo de transformação social - afirmou o ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro.
Propostas sofrem críticas amplas
Em 15 de agosto passado, Chávez divulgou um projeto de reforma constitucional que foi questionado não somente por seus eternos opositores, mas também por intelectuais, economistas e governos estrangeiros. As reservas expressas foram concentradas em dois aspectos centrais da reforma: a reeleição contínua do presidente e o fim da autonomia do Banco Central da Venezuela (BCV). Irritado com as críticas, o presidente venezuelano acusou a Europa de ser "a rainha do cinismo", por criticá-lo quando ainda conserva regimes monárquicos. Chávez se comparou a um artista plástico e assegurou não poder "passar o pincel para outra pessoa, porque essa pessoa poderia alterar algumas cores do quadro".
Na visão de escritor venezuelano Alberto Barrera Tyska, autor de "Hugo Chávez sem uniforme", o presidente pretende criar "um Estado a sua medida".
- Desde criança, Chávez quis ser poderoso. Ele mesmo conta que quando outras crianças se comparavam com o Super-Homem, ele se comparava com (Simón) Bolívar. Com 19 anos, Chávez já sonhava em ser presidente e hoje quer concentrar todo o poder em suas mãos - afirmou o escritor venezuelano ao GLOBO, de Caracas.
Para ele, Chávez está construindo uma "democracia limitada".
- Não posso dizer que a Venezuela está virando Cuba, mas é evidente que aqui falta um equilíbrio de poderes - disse o autor de uma das biografias mais recentes do autoproclamado líder bolivariano.
O fim da autonomia do BCV é considerado uma medida muito perigosa por ex-diretores da instituição como Domingo Felipe Maza Zavala, economista muito respeitado por chavistas e antichavistas.
- A falta de autonomia pode prejudicar a confiança dos venezuelanos em nossa moeda, o que poderia terminar provocando um aumento ainda maior da inflação (a Venezuela tem atualmente uma das taxas de inflação mais altas do mundo) - explicou.
O ex-diretor do BCV lembrou que com a reforma o presidente poderá dispor das reservas da instituição.
- Hoje, o Poder Executivo pode retirar dólares das reservas do BCV, mas deve repor a mesma quantia em bolívares. Essa é a regra básica de equilíbrio das finanças estatais. Com a reforma, o presidente poderá mexer nas reservas, sem repor o que for retirado.
OEA insatisfeita com reeleição contínua
Segundo o economista venezuelano, "Chávez acredita num modelo socialista, mas o problema é que a mentalidade de nosso povo é capitalista".
- Além de ter impacto negativo na inflação, a falta de confiança em nossa moeda poderia afastar investimentos - alertou Maza Zavala.
Outra voz crítica foi a do secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza.
- Gosto das democracias com limite, sou partidário da limitação do poder, e não da ampliação do poder - alegou, referindo-se à reeleição ilimitada proposta por Chávez.
Chavistas e antichavistas estão diante de uma nova disputa crucial, que deverá ser resolvida nas urnas. As campanhas pelo "sim" (à reforma) e pelo "não" serão curtas, pois o governo pretende realizar o referendo em dezembro. A falta de tempo, argumentam os antichavistas, favorece o governo e impede um debate profundo sobre as mudanças constitucionais. Já os colaboradores do presidente asseguram que três meses é tempo suficiente para discutir a reforma de 33 dos 350 artigos da Constituição venezuelana.
As críticas surgiram até mesmo entre setores da Assembléia Nacional, dominada pelo chavismo.
- Esta não é uma reforma qualquer. Serão implementadas mudanças radicais do ponto de vista social, político, econômico e militar - afirmou o deputado Ismael Garcia, do movimento Podemos, da base do governo mas, neste caso, uma voz dissidente que ressalta os dois anos que "a Constituição prevê para discutir uma reforma". - Estamos falando de uma mudança de rumo, e o governo está querendo atropelar o debate.