Título: Em ritmo lento
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 08/09/2007, Economia, p. 21

TEMOR DE RECESSÃO

EUA têm primeiro corte de postos de trabalho em 4 anos, e bolsas caem ao redor do mundo.

As bolsas ao redor do mundo tiveram ontem um dia de perdas, após o governo americano divulgar o corte de quatro mil vagas nos EUA em agosto - o primeiro resultado negativo do indicador de emprego desde 2003. O dado surpreendeu os investidores, já que os analistas esperavam a abertura de 110 mil postos no mês passado. Com isso, o Nasdaq fechou em baixa de 1,86%, e o Dow Jones recuou 1,87%. Na Europa, a Bolsa de Londres caiu 1,93% e a de Frankfurt, 2,43%. Embora tenham fechado antes da divulgação do índice, as bolsas da Ásia também caíram, arrastadas pelo pessimismo. A Bolsa de Tóquio cedeu 0,83%, e a de Xangai, na China, 2,16%. No Brasil, não houve negócios devido ao feriado do Dia da Independência.

Para economistas, as demissões são o primeiro reflexo da crise no mercado de hipotecas de alto risco (as subprime) na economia real americana. De acordo com o Departamento de Trabalho dos EUA, foram eliminados 46 mil postos de trabalho na indústria em agosto. O setor de construção fechou 22 mil vagas, mais que as 14 mil perdidas em julho. O governo ainda revisou para baixo dados anteriores a agosto. Em junho, as vagas criadas passaram de 126 mil, como havia sido divulgado, para 69 mil. Em julho, o número caiu de 92 mil para 68 mil. A taxa de desemprego, porém, foi mantida em 4,6%.

O secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, disse não estar surpreso com a queda do emprego e que ainda vê como saudável a economia dos Estados Unidos:

- Tenho dito que o declínio do setor de moradia vai cobrar uma pena sobre o crescimento, mas a economia vai continuar a crescer no segundo semestre do ano.

Para Alfredo Coutino, economista sênior da Moody"s, em Nova York, os dados mostram forte debilidade da economia americana. Segundo ele, as vagas cortadas se concentram em Flórida, Califórnia, Nova York, Nova Jersey, Texas e Arizona. O economista destacou ainda que os imigrantes que trabalham na construção civil do setor agrícola são os mais afetados. De acordo com a Moody"s, cerca de 80 mil americanos devem aderir às medidas de flexibilização das regras de financiamento anunciadas pelo presidente George W.Bush, na semana passada, para socorrer famílias prejudicadas pelos juros altos.

- Os cortes das empresas do setor financeiro já afetam o índice de emprego nos EUA - diz Coutino.

Segundo analistas, o número deve piorar nos próximos meses. Ontem, a Countrywide, maior empresa privada de hipotecas dos EUA, informou que vai demitir até 12 mil funcionários, o maior corte anunciado desde o início da crise. A IndyMac, segunda maior do setor, vai reduzir 10% de seu quadro de pessoal. Na quinta-feira, a Countrywide Financial, o Lehman Brothers e o National City anunciaram o corte de 3 mil postos.

Com o pessimismo em relação aos EUA, o dólar atingiu ontem o menor nível em 15 anos em relação às principais moedas: o iene subiu 2% em relação à moeda americana, e o euro, 5%. Para Marc Chandler, da Brown Brothers Harriman, a crise vai abater o consumo nos EUA, que pode ser arrastado para uma recessão. Segundo Wilber Colmerauer, sócio da Liabilitity Solutions, o mundo está vivendo o início da crise no mercado de crédito, dez vezes maior que o de ações. Mas a Casa Branca procurou tranqüilizar o mercado. Ed Lazear, conselheiro econômico do governo, disse que "uma recessão é improvável".