Título: Constrangimento no Planalto
Autor: Damé, Luiza e Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 20/09/2007, O País, p. 4

DEPOIS DA ABSOLVIÇÃO: Presidente do Senado sai irritado de encontro com Lula.

Lula trata Renan com frieza publicamente, e é só alegria com Chinaglia.

BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), se reuniram ontem por cerca de 20 minutos, a sós e a portas fechadas, no Palácio do Planalto, ao fim da solenidade de lançamento do Comitê Nacional de Mobilização pela Saúde, Segurança e Paz no Trânsito, da qual participaram lado a lado. Publicamente, durante a cerimônia, o clima era de constrangimento. Renan, de volta ao Senado, não conseguiu disfarçar sua contrariedade e negou ter tratado com Lula de seu eventual afastamento da presidência da Casa. Em contraste, Lula dedicou atenção ao presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), a quem elogiou publicamente em outro evento ontem de manhã.

Na cerimônia com Renan, Lula não deixou transparecer qualquer intimidade com o presidente do Senado e mostrou interesse nos quatro discursos do evento, evitando, assim, os seus tradicionais comentários com interlocutores ao lado. Lula manteve-se estático quando o ministro da Justiça, Tarso Genro, puxou conversa com Renan. O presidente sentou-se entre os dois. Num raro momento, quando a solenidade já estava no fim, Lula e Renan riram e trocaram poucas palavras, durante o discurso do ministro das Cidades, Márcio Fortes.

Antes de tratar Renan com frieza, Lula foi só elogios para Chinaglia, na solenidade de lançamento do PAC da Funasa. O presidente puxou conversa, riu e até deu tapinhas na perna de Chinaglia. Em seu discurso, o presidente fez questão de citar Chinaglia, ao elogiar a atuação do Congresso em votação de projetos importantes, como as medidas do PAC. Dirigindo-se a Chinaglia, disse:

- Você vai viver bons dias neste país, construindo parcerias com a autonomia necessária da Câmara com o Poder Executivo, e eu estou convencido de que esses seus cabelos brancos ficarão mais negros se você conseguir aprovar tudo o que nós vamos mandar para lá.

O encontro com Renan ocorreu em clima completamente diferente. O presidente do Senado chegou ao Palácio antes das 16h, horário marcado para início da solenidade da qual participou com Lula. Renan ficou na ante-sala do gabinete presidencial, acompanhado do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), enquanto Lula se envolvia com outros compromissos. O presidente participou da comemoração do Ano Novo 5.768 com a comunidade judaica e visitou uma exposição de fotos dos jardins do Palácio da Alvorada, no saguão do Planalto.

Ao voltar da exposição, Lula falou rapidamente com Renan, pedindo que o senador esperasse a solenidade para os dois conversarem. Na cerimônia, Renan ainda teve de ouvir o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, chamá-lo de presidente da Câmara.

A fisionomia fechada de Renan, na volta ao Senado, deixou clara sua irritação. Mas ele fez questão de sinalizar que Lula não teria condições políticas para lhe fazer qualquer pedido para que se licencie do cargo para facilitar as votações de interesse do Executivo no Senado. Perguntado sobre isso, afirmou:

- O que você acha? Ele é chefe de um Poder, e eu, de outro. Foi uma conversa institucional.