Título: Câmbio: governo estuda alívio para exportador
Autor: Oliveira, Eliane e Beck, Martha
Fonte: O Globo, 04/10/2007, Economia, p. 25
Idéia é ampliar limite de dólares no exterior. Em setembro, fluxo cambial ficou negativo em US$3 milhões.
BRASÍLIA e RIO. O governo já pensa em ampliar a parcela de moeda estrangeira que os exportadores podem deixar no exterior, como forma de reduzir custos das empresas com a valorização do real em relação ao dólar. Segundo fontes do setor privado, também está na mesa a possibilidade de reduzir de 80% para 60% o percentual que as empresas precisam exportar para ter direito a isenções tributárias na hora de fazer investimentos. As ações fazem parte da preocupação da equipe econômica com os efeitos da taxa de câmbio sobre o setor exportador.
Até o momento, o governo vem respirando aliviado com o crescimento das exportações, ainda que em menor intensidade do que as importações. Mas já detectou setores importantes para a pauta brasileira que vêm enfrentando problemas, especialmente os de manufaturados. Por isso, as áreas econômica e de comércio exterior têm feito reuniões com entidades para pedir sugestões sobre como ajudar a aliviar os efeitos do câmbio.
O aumento do percentual que as empresas podem deixar fora do Brasil para honrar compromissos - hoje em 30% - poderia ajudar ainda a reduzir o fluxo de dólares para o Brasil e desvalorizar um pouco o real.
Segundo o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, essa medida não resolve o problema cambial, mas ajuda principalmente as empresas de manufaturados, as principais usuárias desse sistema. Como esses empresários costumam importar matérias-primas, deixar parte das receitas no exterior para fazer esses pagamentos reduz custos.
Embora a permissão para deixar parte dos recursos de exportação no exterior tenha sido adotada no fim do ano passado, ela só beneficiou 60 empresas até agora, sendo que o país tem 17 mil exportadoras, segundo dados da Receita Federal. Isso ocorre porque, além de a medida ser voltada mais para o setor de manufaturados, os juros elevados no Brasil em relação à média praticada no mercado internacional estimulam o ingresso dos recursos no país.
Depois de fechar no azul desde dezembro, o fluxo cambial (movimento de entrada e saída de moeda estrangeira no país) brasileiro ficou negativo em US$3 milhões no mês passado, segundo dados do Banco Central (BC) divulgados ontem. O número, apesar de pequeno, é bem diferente do superávit de US$5,134 bilhões de setembro de 2006 e reflete a crise internacional que afugentou investidores do mercado brasileiro.
Dólar sobe 0,82%, para R$1,84
Apesar do déficit, os especialistas prevêem que o fluxo voltará a ficar positivo em outubro, na casa dos US$2 bilhões, devido à melhora do cenário internacional. Prova disso é o atual patamar do dólar, próximo de R$1,80, diante da enxurrada de divisas que já está sendo registrada.
- Quando o momento é favorável, como o que vivemos agora, é de se esperar mais recursos - afirmou o vice-presidente de Tesouraria do WestLB, Alexandre Ferreira, referindo-se ao cenário macroeconômico do país.
No mês passado, o saldo cambial negativo foi provocado pela saídas líquidas da conta financeira, que, no período, somaram US$1,983 bilhão, com compras de US$23,688 bilhões e vendas de US$25,671 bilhões. Pelo lado comercial, o resultado continuou sendo positivo em setembro, com superávit de US$1,98 bilhão. Mas foi o menor valor desde novembro de 2004, quando ficou positivo em US$1,456 bilhão.
- É normal ver isso acontecer mais no fim do ano, quando as importações crescem. E o dólar barato acaba estimulando muitas empresas a importarem máquinas e equipamentos. Isso se reflete no saldo comercial - avaliou o gerente de câmbio da Fair Corretora, Mário Battistel.
Com o segundo dia consecutivo de embolso dos lucros pelos investidores da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) - vendendo ações e comprando dólares, no caso dos estrangeiros -, o dólar acumulou mais uma alta, de 0,82%, para R$1,84. O risco-Brasil caiu 1,18%, para 168 pontos centesimais.
De acordo com balanço divulgado ontem pela Bovespa, em setembro o fluxo de investimentos estrangeiros ficou positivo em R$3,811 bilhões.
A varejista Marisa, que este ano completa 60 anos, vai lançar ações na Bovespa e pretende captar cerca de R$528 milhões. Serão distribuídos 44 milhões de papéis ordinários (ON, com direito a voto) no Novo Mercado, que exige mais transparência na gestão e proteção ao minoritário. Cada ação tem valor estimado em R$12. Quem quiser investir tem entre 10 e 17 deste mês para pedir reserva de ações. O mínimo é de R$3 mil.
COLABORARAM Felipe Frisch e Bruno Rosa