Título: O governo usou suas relações
Autor: Oliveira, Eliane e Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 04/10/2007, O Mundo, p. 30
Opositora diz que métodos de campanha da primeira-dama são "uma vergonha".
BUENOS AIRES. Na tranqüilidade da sala de seu apartamento, no bairro da Recoleta, a candidata da Coalizão Cívica à Presidência, Elisa Carrió, criticou a viagem ao Brasil de sua principal adversária na eleição presidencial argentina, Cristina Kirchner. Segunda colocada em todas as pesquisas recentes - com uma diferença superior a 20 pontos percentuais a favor de Cristina - a candidata opositora disse ao GLOBO: "As conversas que eu possa ter (com Lula) não terão como objetivo obter uma foto para uma campanha eleitoral".
Por que a senhora se opõe à aliança do governo Kirchner com o presidente da Venezuela?
ELISA CARRIÓ: Estou convencida de que o continente depende de uma aliança estratégica entre o Brasil e a Argentina. Essa aliança deve ser republicana, não podemos incluir nessa responsabilidade a tentação autoritária do socialismo populista.
O candidato à vice-presidência de sua chapa é socialista.
CARRIÓ: Não devemos confundir populismos demagógicos e autoritários com ideologias.
Hoje a candidata do governo se reuniu com Lula. A senhora tem prevista uma viagem ao Brasil?
CARRIÓ: O governo argentino usou as relações internacionais para as campanhas políticas e isso é uma vergonha. As conversas que eu possa ter (com Lula) não terão como objetivo obter uma foto para uma campanha eleitoral. O Brasil sabe que tenho uma absoluta convicção pessoal em relação à nossa aliança bilateral. Mas isso não implica um abraço de ninguém.
A candidata do governo foi acusada de utilizar recursos públicos em sua campanha...
CARRIÓ: Estamos em presença da utilização dos recursos públicos, mas hoje o que me interessa é que a sociedade conheça nossa proposta. Nossos eleitores querem ser civilizados, querem sair do atropelo vulgar e da megalomania. Não entendo por que o país mais educado da América Latina passou a ser o mais vulgar. Temos de usar o voto para dar um salto qualitativo.
Na década de 90, a senhora e a senadora Kirchner eram consideradas as congressistas mais populares do país e pareciam ter um bom relacionamento...
CARRIÓ: Sempre fomos muito diferentes, eu investiguei muito a corrupção e ela fez muitas declarações, mas nunca fez uma denúncia, nunca investigou.
O caminho seguido pelo casal Kirchner a surpreendeu?
CARRIÓ: Não em relação à metodologia e ao autoritarismo, mas o que, sim, me surpreendeu foi o nível de corrupção. Este governo representa a continuidade do modelo de corrupção de (Carlos) Menem, com a diferença que hoje temos superávit fiscal e superfaturamentos nas obras públicas de até 200%.
Um eventual governo de Cristina Kirchner daria continuidade a este modelo?
CARRIÓ: Acredito que não, mas o que ela, sim, vai garantir é a impunidade em relação ao que já se fez.
Quando a senhora fala em corrupção, se refere ao ministro do Planejamento, Julio De Vido?
CARRIÓ: Não, falo do presidente.
Como se explica que este governo, que a senhora afirma ser mais corrupto do que o de Menem, continue sendo a opção política mais respaldada pelos argentinos?
CARRIÓ: As pesquisas mostram que o governo tem 40% das intenções de voto e essa é a base de apoio tradicional do Partido Justicialista. Se o governo tivesse 60%, aí sim teríamos uma legitimidade maior. Hoje, 55% dos argentinos não estão dispostos a votar na candidata do governo. (Janaína Figueiredo)