Título: Um pé no freio
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 18/10/2007, Economia, p. 33

FIM DE UM CICLO

Após dois anos, BC interrompe trajetória de queda dos juros, com medo da inflação.

Em meio a muita expectativa e uma divisão nas apostas do mercado que há tempos não se observava, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu ontem, por unanimidade, manter a taxa básica de juros em 11,25% ao ano. Com isso, o Banco Central (BC) interrompeu o ciclo de 18 cortes consecutivos na Selic ao longo de dois anos, o mais longo período de afrouxamento da política monetária do país. A dois meses do Natal, prevaleceram, na avaliação dos especialistas, as preocupações da diretoria do BC com a capacidade de as fábricas produzirem mercadorias suficientes para atender, junto com as importações, o consumo crescente das famílias brasileiras.

A dúvida central é se os investimentos - que crescem há 23 trimestres - estão maturando em velocidade suficiente para suprir a demanda doméstica, já que as compras do exterior não dão conta integralmente dela. Em caso de oferta inferior, há incentivo a reajustes de preços, elevando a inflação. Esta preocupação já havia sido expressa na reunião anterior do Copom e no último relatório trimestral de inflação. O BC, com a decisão de ontem, indicou que optou por observar o comportamento da economia e dos preços para se certificar de que este risco não existe.

Lula: Meirelles terá que se explicar

Segundo os últimos dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a chamada utilização da capacidade instalada ficou, em agosto, estacionada em 82,3%. É um patamar muito elevado, mas ainda distante do recorde de 2004, 83,3%.

- É preciso olhar de forma bem preventiva essa questão da oferta. Hoje, o país investe 18% do PIB (Produto Interno Bruto, soma de bens e serviços produzidos no país), e deveria estar acima de 20% para equilibrar o crescimento da demanda - afirmou o economista-sênior da Unibanco Asset Management, José Luciano Costa.

Ontem, o BC voltou a manter o tom lacônico ao divulgar sua decisão, afirmando apenas que "avaliando a conjuntura macroeconômica, o Copom decidiu, por unanimidade, fazer uma pausa no processo de flexibilização da política monetária e manter a taxa Selic em 11,25% ao ano, sem viés". Só serão conhecidos mais detalhes sobre os motivos que o levaram a interromper a queda dos juros na quinta-feira da próxima semana, quando for divulgada a ata da reunião.

O mercado estava bastante dividido sobre qual seria a movimentação do Copom agora. Os mais conservadores, além do problema com o lado produtivo e o tom mais grave do BC no último relatório de inflação, também citavam a atual escalada dos preços internacionais do petróleo que, em algum momento, pode refletir-se no mercado interno, se a Petrobras decidir não absorver mais os impactos. Atualmente, o barril da commodity está na casa dos US$87, recorde. Esta variável não aparecia nos relatórios do BC até o fim do terceiro trimestre.

A parte do mercado que ainda apostava em mais um corte de 0,25 ponto percentual nos juros, que seria o 19º seguido e somaria 8,75 ponto, defendia que o câmbio cada vez mais valorizado - perto de R$1,80 - ajuda a segurar a inflação abaixo de 4%, tanto neste ano quanto em 2008.

No último fim de semana, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado ao BC. Apesar das constantes declarações de que a autoridade monetária deve manter intocada a preocupação com a variação dos preços, Lula afirmou à "Folha de S.Paulo" que trabalhava com a continuidade da queda dos juros em outubro, e, caso ela não viesse, Meirelles teria que dar explicações para a mudança de trajetória.

Sem novos cortes até 2008

A decisão do Copom ontem, também apontam os economistas, indica que não haverá mais cortes na Selic, pelo menos, até meados de 2008. Isso porque, acreditam, o BC além de monitorar o rumo do crescimento da economia e possíveis reflexos na inflação, ele vai esperar para que fique claro o tamanho do impacto da crise dos créditos imobiliários americanos na economia dos Estados Unidos. Se não houver riscos grandes, domésticos e externos, a expectativa é que os juros voltem a ser reduzidos e encerrem 2008 em 10,5% ao ano.